Aprendiz de sapateiro

Por: José Borges da Silva

Iniciei como aprendiz de sapateiro lá pelo final dos anos 1960, em uma fabriqueta de fundo de quintal em Franca. Salvo engano, essas oficinas, como também eram chamadas, constituíam grande parte do parque fabril da cidade de então. Após aprender alguns dos ofícios da indústria de calçados, trabalhei em pelo menos uma dúzia delas em dez anos. A maioria daqueles pequenos empresários era composta de pessoas de condição econômica igual ou pouco melhor do que a dos seus empregados. Embora a CLT estivesse em vigor há mais de duas décadas, ninguém conhecia direitos trabalhistas ou pensava nisso. Nem, tampouco, os patrões sabiam que eram contribuintes do ICM, do IPI, do INPS, etc. Não se falava em contrato de trabalho ou em emprego com carteira assinada, como o governo atual gosta de enfatizar. No entanto, combinavam-se algumas coisas. Uma delas era que, se alguém gritasse “fiscal”, a molecada tinha de saltar a janela dos fundos e desaparecer, sob pena de perder o emprego. Havia sempre alguém que ficava de sobreaviso, que também alertava o patrão de cobradores indesejados, dependendo das condições de momento. Numa das fabriquetas em que trabalhei, esse guardião era o Pecinha, um jovem de vinte e poucos anos, estatura mediana e que gostava de se vestir como os mocinhos dos filmes de faroeste da época. Pecinha era um pseudônimo, porque o nome do rapaz era João. João gostava de deixar as costeletas longas, a barba aparada nos contornos, sempre de chapéu de feltro com abas um pouco mais largas, parecidas com as dos cowboys americanos. E, como não podia usar revólveres, portava um cabo de aço envolto na cintura, por dentro da camisa, uma arma comum naqueles tempos, constituída de um cabo de embreagem ou de acelerador de caminhão, com pouco mais de um metro de comprimento. Era uma espécie de chicote, que continha um pedaço de chumbo na ponta (que no veículo servia para prender o cabo aos pedais). Era uma arma temida, não havia dúvidas. Esse moço simples, no fundo era bom e, no seu íntimo, pensava prestar um bom serviço ao patrão. Em certa feita, o patrão estava com recursos minguados e havia um cobrador que de uma casa de couro da Avenida Presidente Vargas que insistia em visitar a oficina todos os dias, montando uma Vespa, motoneta da moda na época. O Pecinha, tinha como parte dos seus misteres, recebê-lo. E o fazia sempre de cara feia, para anunciar que o patrão não estava, enquanto este se escondia nos fundos do imóvel sem saída. Por isso, o Pecinha tinha de deter o cobrador na entrada. Mas um dia o homem da Vespa resolveu desligar o veículo e apear, dizendo que tinha informações de que o patrão chegara há pouco e queria falar com ele pessoalmente. Foi o que bastou para o Pecinha, que tinha acabado de anunciar que o patrão não viera ainda, reagisse irado: “você tá dizendo que eu to mentindo, caboco?”, afirmou já com o dedo encostado no nariz do interlocutor. O homem da Vespa, que era baixo e franzino, empalideceu. E montou a motoneta e desapareceu, levantando poeira em direção à Avenida Brasil – a fabriqueta ficava em uma das ruas que cruzam essa Avenida. Dentro da fabriqueta comemoramos a valentia do nosso cowboy, que voltou sério, com ares de mocinho que acabava vencer um duelo. Isso ocorreu num sábado pela manhã. Naquele tempo trabalhávamos aos sábados até ao meio dia. Na segunda-feira, no entanto, deu-se o inesperado. O Pecinha apareceu todo arroxeado, com imensos vergões nas costas, pernas e braços. Soubemos que no final de semana se envolvera numa briga e que, ao sacar do seu temido cabo de aço acabou desarmado pelos inimigos, que lhe deram uma surra com sua própria arma. Não sei se o patrão pagou a conta na casa de couros ou não, mas, o cobrador nunca mais apareceu. Surgiram boatos de que fora o homem da Vespa e amigos que surraram o João, por vingança. Ele disse que o local da briga estava escuro e que não deu para reconhecer os agressores. Fato é que desde então a vida de João mudou e, dias depois já não vivia mais no mundo de fantasia. E nós que estávamos ali para aprender uma profissão, aprendemos muito também com a sua dura lição. 
 
 
José Borges da Silva , procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 

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