Tempos modernos

Por: Caio Porfirio

Encontrou o amigo numa esquina:
 
-Ei, cara, há quanto tempo! Não mudou nada. Antes do abraço atendeu ao celular:
 
- Já expliquei. Deixei aí na mesa . . . 
 
Suspirou:
 
- E você, sujeito, por onde anda?
 
Voltou ao celular:
 
- Procure com cuidado. Deixei . . . 
 
Novo suspiro e o ar de alegria:
 
- Tudo bem, malandro? Nunca mais te vi.
 
Retornou ao celular:
 
- Não venha com essa. Eu não perdi.
 
O amigo à espera do abraço. O celular, preso ao ouvido, importunava:
 
- Faça outra cópia. Não é mais comigo. Fale com o diretor. 
 
O amigo assoviava baixinho e esperava. Ele se decidiu, empurrandoo celular para dentro do ouvido, a outra mão dando adeus:
 
- Depois a gente se fala. Tchau. 
 
Foi-se falando alto, gesticulando.
 
O amigo, assoviando baixinho, viu-o, quase discursando, uma mão presa ao ouvido e a outra fazendo gestos nervosos, dobrar a outra esquina.
 
E então saiu caminhando lentamente, livre do vendaval eletrônico. 
 
Do livro de contos a sair este ano 
 
Veredas Percorridas
 
 
Caio Porfirio,  escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti
 
 

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