Volver...

Por: Maria Luiza Salomão

É preciso ter raízes fortes nºalma para ir y voltar dºalhures... 
 
Há uma inércia estranha quando vamos em direção ao desconhecido; e, outra, mais estranha ainda, ao voltarmos para o familiar, ao demasiado habitual. Mesmo que o movimento vá em direção ao nosso desejo, segundo o nosso querer, nos dois sentidos desconhecido/familiar. 
 
Ouvir o vento, permitir suas sacudidelas, desdobrar-se ao extremo imponderável para saber-se vivo e forte para ir e voltar: tarefa humana para o giro flexível, afável, dócil, manso, brando e bravo também. 
 
Há que ter bravura para enfrentar o que nos constitui núcleo duro do bem e do mal naquilo que compreendemos e naquilo que desconhecemos da alma bravia, selvagem e domesticada. Podemos nos medir - em coragem, força e raiz - quando nos lançamos ao forte vento, duramente instigando a ignorância, arrogância, e até o espevitamento em desafiar aquilo que, mais profundamente, não sabemos se sabemos. Nada saberíamos de novo sem audácia de buscar alhures. 
 
Ao me lançar ao desconhecido, algo nasceu fundo em uma paisagem interior, como uma planta a brotar de semente desconhecida. Veio com dores de parto e a felicidade do espanto de ver que tudo vive, tudo o que nasce e o que sobrevive em mim, quando deixo de ser o que era, ao cambiar. 
 
Não é possível, para mim, voltar de uma viagem permanecendo a mesma. Nunca sei, entretanto, do meu ser futuro; do que deixei para trás, do ser passado. O ser presente é soberano. O que sinto hoje impera e mascara o que fui, reinventa novas narrativas do que sinto, do que penso, do que vejo, agora, e que fui. 
 
Experiências bem vividas, nomeadas, não permitem que sigamos intatos, idênticos. Mas, fabulosamente, elas vão me constituindo íntegra, confiante de que permaneço sendo essa, esta, mesmo matizando modos, costumes, olhares, sentimentos. 
 
Volver é voltar para um futuro incerto, já que a vida se movimenta, apesar de. Não se susta o tempo: há o susto de vê-lo envelhecer diante dos olhos e não se amargurar. 
 
Cortejo o que, na viagem não sabia, não era, e agora me é. Volver é uma forma de ampliar a visão do meu passado. OU do meu futuro? 
 
Volver es tener mi presente más rico e precioso (portuñol). Dou graças, gracias. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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