O maior filme de todos os tempos

Por: Luiz Zanin Oricchio

Um Corpo que Cai foi eleito o maior filme de todos os tempos em pesquisa da revista Sight & Sound, desbancando o puro-sangue  Cidadão Kane  que era considerado imbatível desde os anos 1960. Pois bem, apesar do relativismo que cerca tais listas, o certo é que Hitchcock renovou-se no gosto atual como talvez não tenha acontecido com nenhum outro dos diretores do passado.
 
Muito dessa influência se deve à campanha crítica dos Cahiers du Cinéma que, com François Truffaut à frente, visava dar dignidade autoral a Hitchcock, até então considerado apenas um artesão competente. Mas a verdade é que, ao lançar Vertigo, seu título original, em 1956, Hitch foi aclamado em quase todo o mundo. A turma dos Cahiers  então, agradeceu publicamente ao mestre por ele ter lançado um filme que dava razão aos críticos franceses contra seus detratores.
 
Picuinhas críticas à parte, o fato é que Vertigo continua a ser o mais impressionante Hitchcock. Muito tempo fora de circulação por causa de direitos autorais, quando reapareceu mostrou que seu esplendor não havia sido exagero ou invenção de uma geração de críticos dos anos 1950.
 
A história de  Um Corpo que Cai  é inspirada no romance  D’Entre Morts, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac.  Scottie (James Stewart) é o detetive de San Francisco afastado da profissão pela fobia de altura. Um dia, um conhecido o procura para investigar o que se passa com sua mulher (Kim Novak), vítima de crises de melancolia e com tendências suicidas. O desenvolvimento da trama, bastante conhecido, já foi chamado de inverossímil. Com suas reviravoltas improváveis, não o deixa de ser. 
 
Mas quem se importa? O grande filme cria sua verdade interna. A arte de Hitchcock consiste em fazer desse enredo romanesco e pouco provável um grande ensaio sobre o amor humano. A grande sequência, sem dúvida, é aquela em que Scottie tenta transformar uma desconhecida na imagem da mulher que amou e perdeu. Rios de tinta psicanalítica já correram por conta dessa construção da imagem amorosa. O brilho nos olhos de Stewart, ao enfim reconhecer na outra a “sua” mulher rediviva, é um dos instantes inesquecíveis do cinema.
 
Ver este clássico é ainda um dos grandes prazeres que um cinéfilo digno desse nome pode se proporcionar.
 
 
Luiz Zanin Oricchio, jornalista

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