O carona

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Que sorte.
 
Zessouza pensa em voz alta, ao girar a chave de ignição, acelerar lentamente, ouvir o ronco do motor do seu velho carro Fiat, movido a álcool. E experimenta ligeiro calafrio ao se lembrar das madrugadas frias em que tivera de acordar a esposa e os meninos para empurrarem o carro. Só depois de muitas tentativas o motor funcionava.
 
- Que inferno. Carro a álcool só pega no tranco.
 
Hoje, não. É verão, o sol ainda demora a chegar e tudo já anuncia calor, o motor do carro pega que é uma beleza.
 
Enquanto pensa nessas coisas, nas contas a pagar, nos fiados a receber, na amolação do fiscal da vigilância sanitária, no aumento do IPTU e do ISSQN, Zessouza vai ao centro da cidade, apanha sacos de pães lá na Padaria do Régis, volta, abre as portas da sua venda, lá no Jardim Panorama, na periferia da cidade.
 
Antes que possa organizar o balcão, e a vizinhança já vem buscar pão, um maço de cigarro, um quilo de café, de açúcar, um litro de leite... Parte das compras é anotada num caderno, serão pagas na quinzena ou no começo do próximo mês. A maioria dos fregueses, porém, são recém-moradores do bairro, seu relacionamento com o vendeiro ainda não os credenciou ao crédito. Têm de pagar suas compras à vista. O movimento diminui de intensidade depois das oito horas – os sapateiros já foram para as fábricas, os balconistas já se postam atrás de balcões, com suas delicadezas e sorrisos frios. O vendeiro aproveita, então, para varrer o local, dispor algumas  mercadorias nas prateleiras, arrumar papéis, fazer anotações.
 
Então, ocorre o inusitado.
 
São mais ou menos nove horas. Zessouza leva susto grande. Um jovem de cerca de dezesseis anos, invade a venda, fala nervoso, gaguejante:
 
- Perdeu, tio. Fica quieto, tô armado. Se gritar, morre. Entendeu? Eu te mato. Passa o dinheiro do caixa, depressa. Se fizer qualquer coisa eu te mato, viu?
 
Zessouza não entende, nunca entenderá a real ocorrência. Diriam, depois, que teve muita sorte, porque houve um acúmulo de fatores a seu favor: um freguês que atravessava a rua percebeu o que acontecia; uma viatura da polícia fazia sua ronda anual pelo bairro, parara na esquina. Como costuma acontecer, os policiais não quiseram ouvir histórias. Não era sua função. Prestamente meteram no camburão assaltado e assaltante, levaram para o distrito mais próximo. A esposa do Zessouza fechou o estabelecimento, entrou no carro e foi atrás do marido.
 
 - O delegado não está. Saiu numa diligência.
 
Por volta de treze horas, já à frente do distrito, e depois de colher os protocolares depoimentos de assaltado e assaltante, a autoridade explicou para o vendeiro:
 
- Senhor Zé, não houve roubo, o assalto não se concretizou. O rapaz  diz que apenas fingiu que estava armado. Alegou, inclusive, que tudo não passou de uma brincadeira, garantiu que está arrependido, que vai pedir desculpas ao senhor. Além disso, ele é menor e não tem passagens pela polícia. A lei não me permite detê-lo. Por isso, os dois estão liberados. Podem ir embora.
 
Cansado, desanimado, Zessouza deixa o distrito policial, vai-se encaminhando para o carro onde a mulher o aguarda. É alcançado pelo pretenso assaltante.
 
 Sô Zessouza, sô Zessouza. O senhor pode me dar uma carona?
 
A surpresa do homem é tal que, de sua boca muito aberta, demoram a sair as palavras.
 
- O quê? Você quer carona? Depois de tudo que você aprontou, você ainda tem a cara de pau de pedir carona?
 
- Uai, o que que custa o senhor me levar? A gente mora pertinho... e eu não tenho dinheiro pro ônibus. Deixa de ser miserável,  custa o senhor me dá uma carona?...
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 

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