Sermão do Domingo de Ramos

Por: Sônia Machiavelli

281855
“Para chegar ao Sancta Sanctorum, que era o lugar mais sagrado do templo de Jerusalém, traçou Deus a entrada com tal artifício, que primeiro se passasse por três estâncias, tão misteriosas no sítio como na medida, porque quanto eram mais interiores, tanto se estreitavam mais. A primeira e a segunda se chamavam átrios, e a terceira propriamente templo. Por estes como degraus de reverência e culto, e com todas estas disposições de sempre maior recolhimento e aperto, se chegava finalmente ao Sancta Sanctorum; e com as mesmas quer e ordenou a Igreja que entrássemos nós à Semana Santa, porque assim como o Sancta Sanctorum era o lugar mais sagrado do Templo, assim a Semana Santa é o Sancta Sanctorum do Tempo.”
 
Este é um trecho da abertura do Sermão do Domingo de Ramos, do Padre Vieira, que nele desenvolve, entre outros, o tema do transitório e do perene. O texto, de domínio público na web,  equivale em beleza formal e desenvolvimento de ideias ao famoso Sermão da Sexagésima, excepcional expressão de metalinguística. Os dois só perdem em popularidade e esplendor para o Sermão de Santo Antônio, também conhecido como Sermão aos Peixes, onde o pregador denuncia colonos portugueses que se aproveitavam da condição dos índios para escravizá-los;  e  o Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, no qual  ele argumenta com Deus sobre o absurdo que seria uma vitória dos holandeses na disputa pelo nordeste do Brasil. Os  quatro, assim como outros, que somam  mais de duas  centenas, fazem parte da Obra Completa, organizada por professores da Universidade de Lisboa e editores da Círculo de Leitores, que a ofereceram ao Papa, jesuíta como o autor, no último dia 4.
 
Os Sermões enquanto textos são construções onde elementos semânticos fortalecem o caráter retórico expresso no encadeamento de ideias. Formalmente divididos em três partes- o exórdio, onde se introduz o assunto; o argumento, onde se faz a defesa de uma ideia; a peroração, que constitui a conclusão – neles torna-se expressivo o uso intensivo de figuras de linguagem lindadas em frases sinuosas, ritmadas, musicais, boas para o ouvido.  O corpo estilístico é constituído por alegorias, exemplos, metáforas, comparações e sentenças que se somam para falar tanto aos sentidos quanto ao intelecto.
 
Com raízes nas heranças da filosofia, da espiritualidade, da cultura, da história e do contexto de produção enquanto gênero, a oratória religiosa teve em Vieira seu representante máximo em língua portuguesa. Melhor exemplo do Barroco Conceitual, os Sermões expressam uma cosmovisão na qual o autor se vê incluído, qual seja, o mundo católico contra-reformista do século XVII; de governo monárquico e relações coloniais; de estética desenvolvida a partir de um movimento já transformado desde os ideais renascentistas.
 
Se todo sermão do período se organiza a partir de um molde  preconcebido pela cultura e pela tradição, o que ilumina os textos de Vieira é a forma peculiar, rica e surpreendente com que se apodera desta estrutura  movimentando-a em duas direções: uma que faz o olhar voltar-se para o passado, onde se colhem exemplos; outra que foca o presente mas  estabelece vínculos com a memória, chave de leitura facilitadora de acesso à antropologia e à relação com o mundo contemporâneo. 
 
É usando esta clave no Sermão do Domingo de Ramos que  Vieira  resgata  Noé, o dilúvio, a arca, o naufrágio dos seres;  e em similitude, também Jonas, vomitado por uma baleia nas costas de Nínive, a cidade condenada a ser destruída porque seus habitantes repudiavam a palavra do profeta.  Estes relatos, embora  fixados em imagens impressionantes, não seriam garantia de perenidade  textual não fosse o fato de que por eles o escritor/pregador busca  alertar para a passagem irrevogável do tempo, realidade à qual deveríamos estar sempre atentos:  “Os dias que passaram já não podem tornar, nem têm remédio...” E além: “ Acabemos de nos desenganar, antes que se acabe o tempo”. Entre uma consideração e outra, irrompe imagem de grande poder evocativo sobre o que  precisa ser cuidado para que não sucumba : “ Cada cidade é uma Nínive grande, cada casa uma Nínive pequena, e cada alma uma Nínive maior que ambas. Ainda que em todos os dias nos podemos converter a Deus, o tempo que sua divina misericórdia nos sinalou particularmente para a penitência dos pecados são os quarenta dias da Quaresma.”
 
O Sermão do Domingo de Ramos  inseminou os ouvidos do público pela primeira vez  no Maranhão, no ano de 1656. A se imaginar a indigência daquele  Estado brasileiro em nossos dias, há de se supor que grandes dificuldades haveria de ter o padre no século XVII para fazer chegar ao povo sua mensagem cristã, alertando para o tempo que escoa inapelavelmente e precisa ser usado na direção do bem.
 
Para Vieira, a Semana Santa, que se inicia amanhã, era a Sancta Sanctorum do Tempo, como se lê no exórdio. Fernando Pessoa, que também tratou do tempo, mas em outro gênero, refere-se (em Mensagem, célebre livro de poemas)  a Vieira como “Imperador da Língua Portuguesa”. Maior inspiração para ler Sermões haverá?
 
 
IMPERADOR DA LÍNGUA PORTUGUESA
 
Antônio Vieira nasceu em 1608 em Lisboa e foi para a Bahia  ainda pequeno, com sua família. Em Salvador recebeu ordenação sacerdotal aos 18 anos e começou a atuar na Companhia de Jesus.  Os jesuítas cuidavam da catequização indígena e condenavam a escravidão a que os colonos submetiam os nativos. Os indígenas chamavam a  Vieira Paiaçu, “Grande Pai’.
 
Desde muito jovem ele se destacou por ser pregador que atraía grande número de ouvintes. Seus sermões impregnados de filosofia falavam de questões eternas.  Por defender, além dos índios, também os judeus, sofreu condenação por parte da Inquisição: ficou preso por dois anos (1665-1667) e foi impedido de pregar. Recorrendo aos próprios recursos, defendeu-se pessoalmente junto ao Papa, obtendo absolvição. Fez várias viagens   entre Brasil e Portugal. Em uma delas, quase morreu num naufrágio e teve parte de seus sermões levados por piratas. Em 1681, decidiu regressar  definitivamente ao Brasil, onde faleceu, em 1697, na Bahia.
 
Sua obra compõe-se de Cartas, Sermões e outros escritos. As primeiras, aproximadamente 500, tratam de assuntos sobre a relação de Portugal e Holanda, a Inquisição e os cristãos-novos. São consideradas documentos históricos importantes. Os segundos passam de 200 e representam o melhor do que se escreveu no gênero em nossa língua.
 
A Obra Completa do Padre Antonio Vieira, anotada e atualizada, oferecida ao Papa no começo deste mês, resulta de trabalho alentado da Universidade de Lisboa e da editora Círculo de Leitores. São trinta volumes que incluem a totalidade das cartas, sermões, obras proféticas, escritos políticos, textos sobre judeus e índios, poesia e teatro.  Representa a primeira edição completa  e cuidada de toda a produção de Vieira, na qual trabalharam especialistas do Brasil, de Portugal, de Espanha, França, Itália, Inglaterra, Holanda, México e Estados Unidos. Cerca de um quarto da Obra  Completa é  constituída por  textos inéditos.
 
 
LIVRO
 
Título:  Obra Completa 
do Padre  Antônio Vieira
Editora: Circulo de Leitores
 
 
Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras