Relatividade

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A tia Mariazinha gostava de mim. Eu chegava à sua casa, lá na Rua da Estalagem, tomava a bênção, beijava a sua mão, depois beijava a mão do João Cruz, o marido dela. O mérito da atitude não era meu, mas de minha mãe que me ensinava, que me obrigava a pedir a bênção às pessoas mais velhas, sobretudo aos avós e tios.
 
Quando eu tinha uns catorze, quinze anos, a tia Mariazinha  olhou a minha sorte nas cartas de um baralho velho. A mulher ganhava alguns trocados exercendo, meio às escondidas, a função de cartomante.
 
Foi metódica. Estendeu toalha branca sobre parte da mesa, colocou o baralho sobre a toalha. Após segundos de concentração, embaralhou, mandou-me cortar uma vez, com a mão esquerda. Então, ela foi virando lentamente as cartas, dispondo-as,  às vezes sozinhas, às vezes uma sobre a outra, às vezes formando desenhos sobre a toalha. Examinou detidamente as cartas espalhadas diante dela, depois reuniu todas, embaralhou novamente, colocou o baralho diante de mim, determinou:
 
- Agora corta duas vezes com a mão direita.
 
Obedeci, ela repetiu as operações anteriores, agora retirando cartas de três diferentes montes. Fazia todos os movimentos com  extrema lentidão, como se meditasse profundamente antes de virar cada carta. Ao fim, encarou-me com inusitada seriedade e asseverou:
 
- Você vai ficar rico... muito rico!
 
Naquela época, a família miserável passava por crise enorme. Já comíamos o pão que o diabo amassou e, ainda por cima, o pai precisava de muito remédio por causa da operação a que se submetera para combater o mal de chagas que, infelizmente, nunca dele se divorciou. Aliás , acabou por levá-lo demasiado cedo. A mãe estava acamada com doença nunca diagnosticada, mas que a manteve imóvel por mais de ano. Os filhos ralavam em empregos miseráveis, todos entregando seus salários em casa, enquanto passavam vergonha, usando roupas remendadas, sapatos furados, quase sempre presentes de patroas ou de vizinhas.
 
A Terra girou muitas vezes ao redor do Sol. Tornei-me bancário, trabalhei em diferentes estados, retornei à Franca. Esquecido de sorte e de baralhos, reencontrei  a tia Mariazinha. Antes do “Deus te abençoe”, ela disse alegremente:
 
- Não falei...? Não falei que você ia ficar muito rico?
 
Tia Mariazinha não sabia, não desconfiava de que, após oito horas de trabalho no banco, após fazer horas extras, eu tinha de lecionar à noite, aos sábados, aos domingos, para complementar o salário, para sustentar a família, para contribuir com minha mesada para a mantença do pai, da mãe, das irmãs menores.
 
No entanto, com suas palavras, tia Mariazinha escreveu lição na lousa de meus olhos.
 
Pena que eu ainda não estivessse alfabetizado.
 
Hoje, olhando lá atrás, entendo que a vida me traduzia a teoria da relatividade. Ingênuo, eu não percebia que riqueza e pobreza são sopesadas segundo as bases em que nos apoiamos, segundo o buraco por que bisbilhotamos a vida.
 
Hoje, olho para dentro de mim e constato que a tia Mariazinha acertou o alvo:  
 
Hoje, coração leve, estou cônscio de que, sem posses, sem saldos bancários, sou um homem rico.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 

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