Cadernos de João

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Eu morava em Cássia quando o poeta Wilson Alvarenga Borges, então residente na Cidade do Rio de Janeiro, fez uma visita à sua terra natal. Fui então apresentado a ele por um amigo – Edson Marcharré – e primo do escritor.
 
- Esse aqui também escreve, Wilson.
 
Quase morri de vergonha, expliquei que não compunha poemas, não escrevia contos, não escrevia crônicas.
 
- Escrevo nada.
 
Falei que eu apenas tinha mania de registrar idéias, utilizando somente um punhadinho de palavras. 
 
Foi pior. O poeta ficou curioso, fez-me assumir compromisso de ler para ele, no dia seguinte, duas ou três composições minhas.
 
Li, ele ouviu atentamente,  foi franco, asseverou que, com muito trabalho, eu poderia desenvolver. Disse mais: o que eu pensava estar inovando, já era feito por Aníbal Machado, no Rio de Janeiro, já fora feito por poeta francês. Recomendou-me a leitura de Cadernos de João.
 
Aceitei o conselho.
 
Quase decorei aquele livro e, ainda por cima, li, do mesmo autor, o romance João Ternura e o conto Viagem aos seios de Duília. A leitura daquelas obras foi de grande valia nos meus primeiros passos.  O engajamento político e social, no entanto, conduziu minha literatura para o romance e para a novela. A reflexão filosófica orientou-a para o conto. O lirismo e a alegria impeliram minha produção literária para a crônica. Apesar disso, nunca me desapeguei do ímpeto inicial, nem da influência daqueles Cadernos.
 
E eu abençôo a intuição e a influência.
 
Graças a ambos, apesar dos atalhos, das encruzilhadas, dos descaminhos tantos, palmilhei sempre as estradas preconizados pela intuição e por aqueles exemplos. 
 
Graças a eles, ultimo meu terceiro livro só de textos curtos.

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