A menina que roubava livros

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Durante nossa existência, temos o privilégio de nos depararmos com muitas e encantadoras estórias cujos enredos são contados por uma variedade de autores, desde nossos avós aos mais consagrados escritores. “A menina que roubava livros” é uma mistura de fábula com a vida real, e comporta um toque criativo cuja narradora é a Morte, a qual se apresenta enquanto personagem apenas sugerido, mas nunca revelado e explícito. Versa sobre a consistência que podemos atribuir à nossa existência, e o quanto nos é possível associar suavidade, luta, transgressões construtivas, sonhos e coragem, como elementos que compõem nossa caminhada.
 
Baseado no best-seller de Markus Zusak, com adaptação cinematográfica homônima, conta sobre a comovente trajetória de Liesel, uma garota que em plena Segunda Guerra Mundial, buscava por elementos internos que pudessem mantê-la viva psiquicamente.
 
É um filme que vai muito além do velho clichê das guerras e do holocausto, sem se fixar nos horrores grotescos que normalmente eles revelam. De forma sensível e emocionante, fala sobre a riqueza dos encontros entre as pessoas. Revela-nos parcerias que se amparam na subjetividade da mente humana, a qual desvenda sempre uma brecha para a sobrevivência.
 
É uma estória sobre a nossa possibilidade de sonharmos, como uma condição essencial que constitui e constrói novas versões para a realidade. Podemos encará-la como tendo um enredo referente a um ensinamento: de que os afetos vencem a morte. Assim, deparamo-nos com uma obra que consegue a façanha de ter tanto delicadeza quanto beleza estética ímpares, mesmo em tempos de destruição.
 
A película tem início em 1938, época em que a menina e seu irmão devem ser separados da mãe comunista. Os dois são enviados para viverem no subúrbio de uma cidade alemã. Porém, ao longo da viagem de trem, o irmão morre. Apesar de ser analfabeta, Liesel rouba seu primeiro livro, denominado “Manual do Coveiro”, no funeral improvisado do irmão em meio à paisagem gelada da Alemanha, a fim de que pudesse manter viva a memória de quem tanto amava.
 
Nestas circunstâncias de desamparo inicial, acaba sendo adotada por uma família germânica que não concordava com o regime nazista. Uma pobre família com escassos recursos de sobrevivência financeira, porém com uma vastidão de elementos acolhedores e amorosos. Ressalta-se a figura do pai adotivo, através da perfeita atuação do premiadíssimo Geoffrey Rush, e de sua generosidade e musicalidade. Com este sensível pai, aprende a ler e a representar em palavras e expressões, tanto suas imagens externas quanto as internas. Nas andanças do tempo, Liesel é mais que uma sobrevivente, é autora da própria vida, cujos meandros se dão a passos firmes e criativos.
 
No transcorrer do roteiro, vemos que ela continua a roubar livros, em suas mais variadas formas. Faz uso das estórias que lê, e daquelas que posteriormente também escreve, como uma tentativa e recurso de manter-se viva. Através de suas narrativas, ela elabora seus pesadelos e dores, reconstruindo-os em sonhos possíveis de serem vividos.
 
Os personagens são cativantes, como a obstinada e vitalizada ladra de livros: a protagonista Liesel, que é interpretada por Sophie Nélisse com presença extremamente carismática; os humanizados pais adotivos: Hans e Rosa; seu melhor e fiel amigo: Rudy; e o rapaz judeu escondido no porão: Max.
 
Colher as almas dos seres humanos e levá-las para além de nosso contexto concreto, são funções e trabalho rotineiro da Morte, que se constitui como narradora dessa bela história de vida. Ela observa com certa indiferença a trajetória das pessoas em seu curto tempo de existência, e normalmente envolve-se muito pouco com elas, salvo se estas forem especiais. No final, a narradora revela sua profunda admiração e respeito aos vivos que lutam, sendo capazes de construírem possibilidades para além de suas dores e limitações.
 
Há uma junção harmoniosa de roteiro consistente, direção de arte cuidadosa, fotografia irretocável, e a música do aclamado compositor John Williams, que fizeram com que este filme fosse visto no Brasil por cerca de 1,3 milhão de pessoas. Vamos revê-lo juntos, também neste sábado em nosso encontro do Cinema e Psicanálise, com a proposta de podermos pensar em quais elementos fazem com que nossa vida possa valer a pena e se sobrepor à morte.
 
 
O cineasta
Brian Percival é inglês de Liverpool, onde nasceu em 1962. De formação acadêmica em literatura, começou nos anos 80 sua carreira como produtor de comerciais aos quais imprimiu desde o início a sua marca. Mas foi depois de alguns anos de trabalho em agências que se tornou conhecido pela excelência de suas peças. 
 
Em 2000 resolveu partir para os curtas e realizou o bem sucedido About a Girl, que no ano posterior recebeu o prêmio BAFTA de cinema. 
 
Foi nesta época convidado a dirigir com outros nomes expressivos os sete capítulos da série Dowton Abbey, para a TV britânica. Drama de época, alcançou estrondoso sucesso popular e de crítica, o que o consagrou junto a toda a equipe responsável. Por seu trabalho na série, ganhou em 2010 o BAFTA Craft, prêmio de melhor diretor de ficção. Em 2012, foi indicado para o Prêmio Emmy Primetime pela melhor direção do último episódio da série citada.
 
Em 2012, ao ler o recém-lançado romance de Markus Zusak, A menina que roubava livros, ficou muito interessado em levar a história para o cinema. Reuniu-se com o escritor, que também se sentiu motivado pela possibilidade de transposição, e dezoito meses depois o filme foi concluído. Em entrevista ao jornalista Steve Weintraub, do site Omelete, ambos falaram do processo trabalhoso que foi traduzir palavras em imagens. Suzak revelou que ficou muito tocado pela frase de Percival, quando se falaram pela primeira vez e o diretor lhe garantiu que o filme não o decepcionaria; Percival, por sua vez, afirmou ter sido doloroso ter de cortar quatro cenas que havia considerado magníficas, mas impactavam na extensão da história; e ambos se revelaram muito felizes com a crítica especializada, unânime em reconhecer que “o filme traz uma história que afeta as pessoas”. É este o filme para o qual o leitor está convidado a assistir hoje, no Centro Médico, às 15 horas. (SM)

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