Crônica da Próstata

Por: Roberto de Paula Barbosa

Há alguns dias, como faço anualmente, fui visitar meu urologista para os exames de rotina, sabendo que a rotina inclui um exame periférico dos rins, apalpação dos bagos, perguntas rotineiras e, também o interno, o indefectível exame de toque (cruz credo, ave Maria!). Ao chegar à clínica, onde também tem outros médicos e especialidades, aguardando na sala de espera, fiquei observando as demais pessoas, para ver se elas não estavam me observando para deduzir que médico eu iria consultar. Estavam todos apreensivos. Um senhor de uns 60 anos estava muito nervoso, acompanhado de uma mocinha que, provavelmente era sua neta, e suava e tremia muito; vá lá saber se era uma consulta com o urologista ou com algum geriatra. Um tremor pode significar algum sintoma de doença de velho ou uma expectativa de um dedo sondar as suas intimidades. Havia também três rapazes, mas esses estavam tranquilos, conversando concentradamente com seus celulares. Observando atentamente, apenas os velhos estavam mais desconfiados, olhando de soslaio, desviando os olhares, preocupados. Havia também um senhor de chapéu de abas largas, de botinas, calças puídas, que estava muito concentrado, parecendo fazer uma oração. Aí me fez lembrar da oração do gaúcho, prestes a fazer o temido exame. Era mais ou menos assim: “Minha N.Sra., protetora dos gaúchos indefesos; protegei esse gaudério nesse momento de dificuldade, tchê; que o exame seja ligeiro; se não for, que eu desmaie, tchê; que o dedo do doutor seja pequeno, tchê; se não for, que eu não veja; que doa bastante pra eu não gostar do exame, tchê; mas, se mesmo assim eu gostar, tchê, que eu não demonstre e que, se eu demonstrar, tchê, o doutor não perceba; se o maldito perceber, que não me ligue e se mesmo assim, tchê, ele me ligar, que eu não atenda; se eu atender, que acabe a bateria do telefone, tchê; mas por tudo que é sagrado, minha N.Sra., me proteja nesse momento de dificuldade. Amém”.
 
Como não sou devoto, não fiz a oração, mas serviu para amenizar o desassossego de meu espírito e rir da minha própria condição, antes de enfrentar o maligno dedão.
 
Agora um conselho aos irmãos: quando for fazer o exame, não fique muito íntimo do doutor; quando entrar na sala de consulta, não fique abraçando-o, cumprimentando com mãos apertadas, tapinhas no ombro, etc. Fale logo o que sente e aguarde instruções. A não ser que ele peça seu telefone e você dê.

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