Resistir é esperançar

Por: Sônia Machiavelli

Convidados pelo vice-presidente da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, Nelson Jacintho, e por uma das responsáveis pela divulgação do evento, jornalista Eliane Silva, estaremos hoje em auditório do Palace para tentar mostrar durante hora de prosa o que foi, o que é e para onde caminha a literatura francana. Seremos quatro em variações sobre o mesmo tema : Luiz Cruz de Oliveira, Paulo Gimenes, Vanessa Maranha e eu.
 
Mineiro de Cássia, Cruz vive em nossa cidade desde a década de 70, tendo aqui desenvolvido intensa atividade política. Licenciado em Letras, exerceu o magistério e foi funcionário do Banco do Brasil. Sua extensa produção literária (são 23 títulos e outro em gestação) inclui ficção, teatro, ensaio, crítica, didático, biografia. Esboço de História da Literatura Francana é obra básica para quem quiser conhecer os que escreveram em Franca e região no século XX. Cruz é referência cultural; a ele recorrem os que estão iniciando sua caminhada pela escrita. 
 
O francano Paulo Gimenes é formado em Comunicação Social e pós- graduado em Marketing. Poeta, prosador, compositor e cantor, tem quatro obras lançadas: os CDs Letra e Música; MCB- Música Cidadã Brasileira; os livros CDs Poemas para cantar, Músicas para ler; O poeta e o cantador- uma odisseia caipira. Seu projeto de levar poesia e música às escolas de Franca tem alcançado ótimos resultados.
 
Vanessa Maranha, também nascida em Franca, é psicóloga e já trabalhou como jornalista neste Comércio. Começou a percorrer muito cedo os caminhos da escrita- aos 20 anos ganhou um prêmio internacional da Radio France por conto construído em francês. Seu estilo vem se apurando de forma contínua e desde As coisas da vida (crônicas), passando por Cadernos Vermelhos (fragmentos), 807 dias (contos), Quando não somos mais (contos) até “contagem regressiva”(romance), o caminho de busca pela expressão autoral foi trilhado com talento, inspiração, empenho e vasta produção de textos que aguardam publicação, enquanto os títulos que vêm à luz são premiados em concursos importantes na cena brasileira, como o da Universidade Federal do Espírito Santo, o de Barueri e o Off Flip. Tem participado nos últimos anos como convidada de oficinas e palestras na Feira do Livro de Paraty. 
 
À proposta da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que é contemplar o passado com um olhar reflexivo, o presente em sua pulsação contínua e o futuro na certeza das inevitáveis transformações, pretendemos responder com nossa experiência de escritores de Franca, terra que tem forte tradição literária.
 
Como editora do Caderno de Domingo, publicação que nasceu em 26 de abril de 1992 e evoluiu para o tabloide Nossas Letras em 30 de abril de 2006,  no formato que se mantém, tenho testemunhado o gosto da nossa gente pela escrita: centenas de textos e dezenas de autores publicados no caderno literário do Comércio da Franca, que celebra neste junho seu centenário, embora apresentem forte tendência à crônica, também surpreendem enquanto ficção, ensaio, poesia. Por 23 anos consecutivos o caderno foi o primeiro espaço ao qual acorreram muitos dos que se dedicam à escrita não-factual. Alguns permanecem nele até hoje, incansáveis, grandes companheiros que resistem com sua fé na palavra literária. Outros ficaram até que a morte os levasse, depois de rica contribuição: Alfredo Palermo, Sebastião Expedito Ignácio, João Alves Pereira Penha, Nelson Damasceno. Novos nomes surgiram, mas desistiram porque não é mesmo fácil manter periodicidade, qualidade imprescindível para quem quer estabelecer vínculo e padrão de escrita ju
nto aos leitores; mas houve os que estrearam mais recentemente e continuam firmes todos os sábados. 
 
Sinto-me gratificada quando constato o crescimento dos que começaram publicando conosco e já lançaram seus livros. Sinto-me honrada em ter nomes expressivos -até um Prêmio Jabuti! _ em nossas páginas. E me sinto feliz por poder estar a partir das 14 horas de hoje ao lado de Vanessa Maranha, Luiz Cruz e Paulo Gimenes discutindo o tema: “Literatura fora dos grandes centros urbanos- produção, publicação, visibilidade”. É estimulante falar daquilo que amamos. 
 
Não sei se o assunto caminhará para o encontro de alguma sugestão efetiva que melhore o cenário atual. Mas tenho certeza de que muitos escritores, de Franca e outras cidades, estarão representados na queixa tão ouvida e que traz à baila um problema que é de ordem nacional. Pesquisa levada a cabo pela Fecomércio e divulgada no último dia 20 de abril, revela dado sintomático da nossa indigência cultural: 7 entre 10 brasileiros não abriram 1 livro em 2014. Chega a ser deprimente para quem escreve, tem fé no poder mobilizador da literatura mas não enxerga boas perspectivas para um modelo de educação engessado em currículos desinteressantes e impeditivo daquele voo solo que a literatura enseja. 
 
Queremos falar de nossas dificuldades enquanto escritores no interior, livres para criar, mas limitados na publicação e divulgação por políticas públicas insensíveis à produção literária; e subestimados por instituições que deveriam, por sua própria gênese, oferecer estímulo e promover os escritores mantendo sua obra em evidência- o que não acontece.
 
Será imperioso também lembrar o desafio que se desenha diante da mudança de paradigma na comunicação, pois estamos migrando de forma veloz do analógico para o digital e a pergunta que mais tem sido feita é se o livro de papel resistirá; se a relação entre internet e literatura poderá trazer novas possibilidades para criar, ler, discutir, interargir; se a era das redes sociais está ajudando os autores de todos os gêneros. 
 
Na sua passagem por uma feira de livros do Interior, o escritor Ignácio de Loyola Brandão disse que a literatura e suas feiras lembram “aqueles cristãos do tempo dos césares que se reuniam em grutas, cavernas, catacumbas para exercer sua fé. De cidade em cidade, variando as falas, as contações de história, as comidas, as muitas linguagens que abrigamos, estes escritores, músicos, teatrólogos, ensaístas, jornalistas, historiadores, poetas, os mais diferentes, caminham subterraneamente, formando leitores, defendendo a língua portuguesa dos códigos do twitter, das linguagens cifradas do SMS, dos grafites, das letras do funk, dos Michels Telós.”
 
Também acredito nisso. Por tal razão, imagino que cada um de nós que aceita o convite, comparece, se envolve e se manifesta, exercita o direito de resistir no território da literatura. Se esta se revelar valorosa, chegará aos lugares mais surpreendentes e impensáveis, como me tem sido possível avaliar, e será capaz de mobilizar emoções de toda ordem, promovendo expansão que vai muito além da estética, pois avança pelo âmbito psíquico. Um verso pode salvar uma vida. Um relato pode sinalizar caminhos, abrir janelas ao espírito do leitor. 
 
Convido pois todos os que se interessam pelo poema que comove, pela narrativa que seduz, pelo ensaio que desvela, pela crônica que deleita, pelo artigo que historia, a se fazerem presentes conosco no Palace, hoje, a partir das 14 horas, quando a literatura francana será a protagonista do encontro.
 
Resistir é esperançar.
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras