Algumas Falas e Notas de Silêncio

Por: Sônia Machiavelli

Nenhum gesto é inocente. Responder sim ou não é desvelar-se, aderir ou opor-se. Ao aceitarmos o convite para ir a Ribeirão Preto e falar sobre literatura na Feira Nacional do Livro, Vanessa Maranha, Luiz Cruz de Oliveira, Paulo Gimenes e eu manifestamos nosso desejo de levar a quem nos fosse ouvir um breve panorama da literatura francana, sua gênese, suas singularidades, o esforço para criar e mobilizar leitores em torno de algo que acaba sendo de todos, pois tudo o que literariamente se escreve tem relação com o lugar onde é produzido.
 
Também quisemos, com nossas falas, reafirmar a fé na palavra literária, que chega a espaços surpreendentes e pode ser catalisadora de mudanças extraordinárias. Uma história, um poema, uma crônica, um ensaio às vezes incidem de tal forma sobre a alma do leitor que mudam suas perspectivas de vida. 
 
O tempo foi curto para muito assunto que tínhamos de antemão planejado tratar com o público que lotou o salão do Palace; mesmo assim deu para citar algumas experiências sobre escrita, produção, divulgação e comercialização, pois, se até meados do século passado o escritor apenas escrevia, esse era seu ofício essencial, desde então ele tem, não raro,  de entrar na cadeia produtiva e ir à luta também para editar, promover e comercializar a sua obra. 
 
Respondendo a minha colocação sobre a tradição que por décadas ligou a Franca o aposto “Atenas da Mogiana”, e inspirou o desembargador Márcio Martins Ferreira a cunhar a frase “Não se chega em Franca, sobe-se a ela”, Cruz abriu o encontro com a didática que lhe é peculiar e com o lirismo que costuma imprimir à sua fala em ocasiões como aquela que nos tinha sido oferecida. Lembrou oportunamente Antonio Constantino e o caráter de vanguarda do livro de poemas Este é o canto de minha terra; resgatou Jonas Deocleciano Ribeiro e seu romantismo tardio; trouxe à cena Josaphat Guimarães França, cujo simbolismo perpetua a mensagem; situou a importância da romancista Evelina Gramani Gomes, verbete do Dicionário de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho; declamou Carlos Assumpção, que tem nome e poema honrosamente incluídos em obra alemã que trata da poesia negra. Em cada um desses instantes, sua voz ressumou ternura. Lembrou, mais uma vez, o grande número de autores francanos que continuam publicando na cidade, e reavivou sua tese sobre a relevância dessa pluralidade que se adensa e prepara o surgimento da grande obra. Faltou falar de algo importante que havia mencionado em prévias, ou seja, de um tipo de crônica lírica que vem evoluindo entre os escritores francanos e parece ser um traço distintivo na literatura que está se construindo contemporaneamente. 
 
Paulo Gimenes trouxe sua experiência de “poeta cantadô” e nos fez recordar Mário de Andrade, homenageado pela Feira. O escritor francano, tanto pelos assuntos quanto pelo estilo, às vezes resvala pelo escritor paulistano, um dos nomes fundadores do Modernismo. Se Mário buscou em temas e prosódias um espelho de nossa brasilidade, Paulo, por sua vivência familiar fazendeira, e por sua dedicada pesquisa sobre o falar caipira, inscreve em suas obras, sejam elas poesia ou prosa, certo localismo, alguma nostalgia e muitos apelos telúricos. Estes formam, no conjunto, um feixe que acaba revelando mais, ou seja, alcança esboçar um retrato da transformação do perfil econômico da cidade, que evoluiu da produção cafeeira para a indústria de calçados, e já se firma como polo universitário e economia de serviços, mantendo a tradição rural fortemente presente em alguns segmentos. 
 
Como uma das preocupações reiteradas nas dezenas de palestras da Feira tinha sido o destino do livro de papel num mundo tornado cada vez mais digital, levei ao nosso bate-papo surpreendentes dados do mercado editorial divulgados no final de 2013 pela FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Segundo esta, apenas 3% dos 5,3 bilhões faturados com livros no Brasil tinham vindo das plataformas digitais, o que nos faz prever uma existência ainda razoável para o impresso, embora se saiba que, em algum momento, haverá rupturas e o mercado terá de se reinventar, porque os caminhos se viabilizam para tornar a Internet a mãe de todas as publicações literárias.
 
Vanessa Maranha, que utiliza também as plataformas digitais para veicular sua produção, comentou o bom retorno que tem obtido e concordou com o fato de que o novo fenômeno que surge, o dos booktubers, jovens que leem livros impressos e os resenham no youtube, pode representar uma maneira virtual de seduzir para a leitura impressa, inclusive de clássicos, pois no atual repertório encontramos desde Proust e Joyce a Milton Hatoum e Paulo Leminski . 
 
E foi à Vanessa que coube encerrar o encontro, com a leitura de texto ( na verdade, quatro textos sintetizados em um) que havia produzido para aquele momento, e no qual trouxe, entre outras considerações, algumas sobre a dura trajetória do escritor em nosso país:
 
“O escritor brasileiro, em sua maioria, para sobreviver, precisa exercer outra ou outras profissões, de modo que, para escrever ele precisa gerenciar o seu tempo. São pouquíssimos os que hoje, no país, vivem dos royalties dos seus livros e podem sair por aí promovendo a sua literatura, trocando experiências com outros autores. Escritores, com algumas exceções, não são empresários, a sua energia e nem tampouco o seu conhecimento abrangem técnicas de divulgação e marketing ou o domínio de toda a burocracia que envolve os editais de fomento cultural, um outro viés para publicação e circulação literárias. Não se trata de esperar tudo do Poder Público, mas eu penso que de algum modo, poderia haver incentivo mais efetivo do Estado ou da municipalidade à circulação de autores locais, desde a seleção criteriosa que não se configurasse num balcão político até o estímulo à sua aproximação com a comunidade, e que se propusesse nas escolas, ao menos a adoção de seus livros, na valorização do feito local.”
 
Encerrado o evento, fomos contemplados com o mais recente livro de Luiz Cruz de Oliveira, Notas de Silêncio, saído do forno durante aquela noite e ali levado por Fernando Oseias. Olhando o livro, 11x16, bom de ter entre as mãos, carregar na bolsa, manusear em qualquer lugar, abrir ao acaso para ler em poucas frases profundas mensagens, imaginei que o objeto ainda vai durar muito neste formato. Produção esmerada da Ribeirão Gráfica Editora, 185 páginas, capa bonita (em vermelho, preto e branco, cores de eleição do autor) de Roberto Telles Zanin, prefácio de Regina Bastianini e posfácio de Caio Porfírio Carneiro, a nova obra é coletânea de curtos textos líricos que têm por tema o silêncio. Nela destaco Companheiro: 
 
“ — Não sabe?
 
— Claro que sei. Escrevo porque o silêncio nunca me apavorou, sequer me constrangeu.”
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora
 

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