João da Silva e o anjo

Por: Everton de Paula

Era  uma vez um brasileiro chamado João da Silva que, como a maioria dos homens da chamada época de ouro de seu país, tinha pouco cabelo e um sentimento de culpa esmagador.
 
Também tinha um filho chamado Ígor. Como a maioria dos membros da nova geração contemporânea, Ígor  tinha certo desprezo por qualquer pessoa de mais de 40 anos.
 
- Que bagunça a sua geração arranjou -, costumava dizer Ígor. – Devido às trapalhadas de vocês, enfrentamos uma sociedade racista, poluída, superpovoada em quatro ou cinco metrópoles e impotente diante de tanta corrupção política. Sem falar na inabilidade em votar e nas consequências diretas disso como a fome no Nordeste, a educação esfarelada, a saúde desleixada, a segurança pública uma piada. Muito obrigado.
 
- Acho que somos a pior das gerações que já viveu – dizia João da Silva, balançando a cabeça, compungido. – Desculpe-me, Ígor.
 
Ígor dava de ombros e saía com os amigos para fumar maconha.
 
João da Silva não conseguia deixar de sentir que estava para ser punido pela cólera divina por seus pecados. Por isso ficou muito espantado ao acordar uma noite e dar com um anjo aos pés de sua cama escrevendo num Livro de Ouro.
 
- Estou aqui, João da Silva – disse o anjo – para lhe conceder um desejo.
 
- A mim? – indagou João surpreendido. – Por que eu?
 
- Você foi selecionado pelo computador celeste como um homem típico de sua geração – disse o anjo. – E sua geração deve ser premiada pelo seu brilhantismo.
 
- Deve haver algum engano – disse João da Silva, franzindo a testa. – Nós temos sido terríveis. Criamos uma sociedade racista...
 
- A sociedade sempre foi racista – interrompeu o anjo. – Mas vocês admitiram isto e foram aqueles que tentaram uma solução. Você vê: hoje, quase tudo é preconceito: contra afro-descendentes, contra religiões não cristãs, contra os menos afortunados em bens materiais, contra os homossexuais.
 
- Mas nós lutamos pela democracia durante o governo militar, e essa democracia veio em forma de corrupção.
 
- Vocês elegeram milhares de homens na esperança de levar liberdade e democracia a todos – disse o anjo. – Em verdade, um nobre objetivo!
 
- Sim, talvez – concordou João da Silva. – Mas não se pode negar que nós poluímos a água e o ar e espalhamos lixo por toda parte.
 
- É fato – disse o anjo. – Mas o meio ambiente está poluído unicamente porque vocês construíram cidades mais opulentas, logísticas mais inteligentes que o mundo já conheceu. O que vale são as intenções.
 
- Acho que está certo – aduziu João da Silva. – Mas olhe para a explosão populacional. Fome e doenças ameaçam a humanidade.
 
- Só porque sua geração curou moléstias, aumentou o suprimento de alimentos e assim prolongou a expectativa da duração da vida – disse o anjo, - realização formidável.
 
- E vivemos sob o temor do desemprego...
 
- Isto é momentâneo. O desemprego também é consequência das maravilhosas máquinas robotizadas que vocês inventaram para otimizar o trabalho. Que triunfo glorioso!
 
- Acha mesmo isso? – indagou João da Silva sentando-me mais ereto e dando um sorriso tímido.
 
- Sim – confirmou o anjo, lendo no Livro de Ouro. – Suas razões foram excelentes, suas metas ideais, suas energias sem limites e suas realizações espetaculares. Na história da humanidade, os nomes de sua geração lideram todo o resto. Não há onda cultural mais expressiva que a criada por sua geração. E por isso, João da Silva, com a autoridade de que fui investido, concedo-lhe um desejo. O que será?
 
- Desejo – suspirou João da Silva, o representante da geração de ouro, escolhido pelos céus – que você tenha uma conversinha com Ígor.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras
 
 

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