A cozinha das escritoras

Por: Sônia Machiavelli

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Que nossos olhos nos traem, estamos cansados de saber. Podemos ver apenas o que queremos e não o que a realidade nos exibe, pois difícil coisa é não se deixar iludir. Tive mais uma prova curiosa disso ao flanar pelas barracas da Feira do Livro de Ribeirão Preto, no último junho, em busca de títulos que me despertassem atenção naquela Babel de publicações.
 
Depois de ter colhido uma dezena delas nas prateleiras, tive a atenção despertada para volume único que parecia abandonado na seção de culinária. Capa mole, desenhos simples, título despretensioso -“A cozinha das escritoras- sabores, memórias e receitas de 10 grandes autoras”, me pareceu mais uma coletânea de pratos que poderiam me sugerir algo novo para a coluna de domingo. Comprei o livro e no dia seguinte já tinha me esquecido dele. Só na semana passada eu o redescobri.
 
Já no prólogo, boa surpresa. A obra, conjunto de ricos ensaios, ia muito além da comida. Tematizava sobre desejo, alimento, apetite, idiossincrasias, volições, o próprio ato de criar - fosse prato, livro, caminho, soluções, vida... Desatei a ler e não parei mais. Fui com ele pelo domingo adentro. A autora de origem italiana, Stefania Barzini, soube depois, é jornalista que se dedica a temas ligados a comidas e vinhos; e, graças ao seu estilo elegante, sensorial, eminentemente literário, inaugurou um nicho e conquistou milhares de leitores em seu país e nos EUA, onde tem vários títulos publicados. 
 
Nos parágrafos iniciais, o leitor já percebe as qualidades da escritora que anuncia o que se vai encontrar: “Dessa forma,partindo do ‘fogão das autoras’, tanto dos que ainda podemos visitar, como os de Grazia Deledda e Aghata Cristie, como dos que só existem em fotografias, como os de Gertrude Stein e Karen Blixen- e ainda daqueles que possivelmente foram narrados pelas próprias escritoras, como os de Virgínia Woolf, Colette e Simone de Beauvoir-, gostaria de contar a relação de algumas famosas com a comida, com o ato de comer e de cozinhar. Meu desejo é que seja uma narrativa, porque a cozinha é feita, sobretudo, de histórias. Assim, narrarei minhas mulheres por meio de seus gostos e desgostos pessoais, tanto na vida quanto na literatura”. Completam a lista de biografadas, Elsa Morante, Harriet Stowe, Pamela Travers.
 
Das inglesas Agatha Cristie, romancista policial, e Virgínia Woolf, ficcionista do modernismo; da poeta de origem judaica Gertrude Stein; das francesas Colette, profícua criadora de Gigi, e Simone de Beauvoir, feminista de primeira hora com O Segundo Sexo; mesmo da dinamarquesa Karen Blixen, notória pela transposição para o cinema de A Festa de Babette- é provável que muitos já tenham ouvido falar. Até Harriet Stone não é anônima,  pois lida pelos de minha geração: escreveu A cabana do Pai Tomás, relato de simplicidade franciscana, mas essencial pelo discurso abolicionista no contexto da Guerra de Secessão nos EUA. 
 
Confesso que desconhecia Grazia Deledda, Elsa Morante, Pamela Travers. Stefania Barzini me esclareceu. A primeira, autora de Caniços ao vento, levou para seus romances a ilha italiana da Sardenha e conquistou o Nobel de literatura em 1926. A segunda, companheira de Alberto Moravia, continua reverenciada na Itália onde seus livros A ilha de Artur e A História têm dezenas de reedições. A terceira é criadora de Mary Poppins , a babá extraordinária que ganhou as telas.
 
São dez curtas biografias que entrelaçam ao factual observações inteligentes sobre a relação das escritoras com a comida. Virgínia Woolf, cujo comportamento em relação aos alimentos é ambivalente, vinte dias antes de se suicidar escreve em seu diário sobre bacalhau e linguiças. Gertrudes Stein ama comer, mas quem cozinha é sua mulher, Alice Toklas, cujo “peixe para Picasso” se torna célebre. Simone de Beauvoir, quem diria, elege como iguarias os nada proletários soufflé de fromage, blanquette de veau, clafoutis de cerese. Elsa Morante prefere pratos simples e é tomada muitas vezes por “aquela fome dilacerante e aterradora que só conhece quem viveu a guerra”. Agatha Christie recorre ao creme de leite nas crises de ansiedade e a ovos fritos nas depressões. Delleda, em seu romance autobiográfico, descreve a cozinha de sua casa como “o ambiente mais habitado, mais cheio de vida e intimidade” de toda a infância. Harriet Stowe, na narrativa que ajudou a libertar os escravos, registra pratos que se tornaram clássicos no sul dos EUA: salsichas, empadões, conservas, bolos de milho e as famosas pound cakes, assim nominadas porque todos os ingredientes que a compõem devem pesar one pound. Pamela Travers insere no menu diário de Mary Poppins dezenas de itens apetitosos, e os explica na frase de um personagem: “Não é importante o nome que se dá para aquilo que se come; o importante é o sabor!”Colette celebra a culinária como algo sagrado, mágico, lúdico : nunca deixa de olhar para “o mistério, a magia e o sortilégio de um prato fumegante como um cassoulet”.
 
De todas, a vida que mais me impactou foi a de Karen Blixen. Ela, que escreveu maravilhosamente sobre cozinha, fragrâncias, texturas e paladares delicados; e criou uma Babette “artista da cozinha e consciente de sê-lo”, era anoréxica. Sua morte, em 1962, se deu por conta de uma grave desnutrição. A vida é bem irônica. 
 
 
INGREDIENTES
 
Stefania Barzini é bastante conhecida na Itália, onde nasceu há 60 anos. Formada pela Universidade de Turim, começou a escrever ainda nos tempos de estudante, em jornais e revistas. Depois viveu alguns anos nos Estados Unidos, convidada a proferir palestras e estruturar cursos sobre temas ligados à comida e a vinhos. Atualmente mora em Roma e apresenta programas num canal da Rai Sat. É colaboradora de importantes revistas e autora de vários livros. Um deles, lançado com o selo da Mondadori, teve reedições também em outros países europeus. Chama-se Fornelli d’Italia, algo como Fogões da Itália, ainda sem tradução para o português. Nele reescreve a história do país através dos alimentos, do modo de cozinhá-los, da evolução das técnicas, da ampliação do consumo. Segundo os críticos, a pesquisa e a escrita de Barzini ensejam uma viagem desde a unificação da Itália até nossos dias, pelo ângulo das mudanças apreendidas de um ponto de vista original- o de um cozinheiro dentro de uma cozinha e ao lado de um fogão, buscando elementos pontuais na publicidade, nos jornais e nos filmes de época. Outro livro de sucesso da escritora é A távola com gli dei, que também não chegou ainda ao Brasil e tem como pano de fundo as belas Ilhas Eólias, no norte da Sícilia. Uma dessas ilhas, Stromboli, que se tornou famosa pelo filme de Roberto Rosselini, volta a ser cenário do último romance. Tem nome emblemático de seus interesses temáticos. Chama-se  L’ingrediente perduto  e se passa entre esse arquipélago do Mar Tirreno e os EUA. O ingrediente, no caso, é a identidade. (SM)
 
 
LIVRO
 
Título:  A cozinha das 
escritoras
Escritora: Stefania Barzini
Tradução: Rubia Sammarco
Gênero: Ficção
Número de páginas: 240
Preço: R$ 32,90
 
 
Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

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