Inveja

Por: Eunice Mendes

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Certo dia, em uma reunião só de mulheres em minha casa, uma amiga fez uma pergunta que me pareceu ao mesmo tempo instigadora e perigosa:
 
“O que invejamos umas nas outras?”.
 
A pergunta suscitou constrangimento, olhares voltados para o chão, risadas nervosas, desconforto...
 
Mas, eis que chegou o momento da redenção: uma das integrantes da roda passou a confidenciar o que invejava em relação às demais presentes. Curiosamente, esse início corajoso fez com que, aos poucos, o clima desanuviasse. Em efeito dominó, todas nós começamos a dizer as qualidades que gostaríamos de ter e eram representadas pela colega do lado. Identificamos características como beleza, sedução, facilidade para escrita, criatividade, capacidade para ganhar dinheiro, carisma, simpatia, e assim por diante.
 
Todas estavam tão à vontade que uma das mulheres não hesitou em reclamar:
 
- E eu? Ninguém vai falar de mim? O que vocês invejam em mim? Será que eu não tenho nada para ser invejado?
 
O resultado não podia ter sido melhor. Estavam ali sete mulheres sem receio de se expor e, de alguma forma, deixando as sombras entre si desaparecerem com a luz que advinha de pequenas frestas abertas em suas janelas. Foi um momento terapêutico e de muita cumplicidade.
 
E quanto a você, algum dia sentiu-se frustrado porque um colega de trabalho conquistou a posição que tanto almejava ou aquele amigo, com menos experiência e estudo, conseguiu consolidar um patrimônio financeiro maior do que o seu? Já se surpreendeu pensando que venderia 10% da sua inteligência para conquistar maior beleza física e magnetismo pessoal? Experimentou a desagradável sensação de pequenez em uma festa, reunião familiar ou evento social em que alguém brilhou mais que você, mostrando-se comunicativo e cativante?
 
Se você já se viu como protagonista de cenas como essas ou outras semelhantes, seja bem-vindo ao mundo dos “normais”! A inveja é um dos sentimentos mais comuns entre os seres humanos. Mas por que esse sentimento costuma ser tão constrangedor?
 
O preconceito contra a inveja é milenar. Nossa cultura estabelece como crença e valor que se trata de um sentimento a ser negado, pois é considerado sintoma de falta de caráter, uma verdadeira anomalia social. Na tradição judaica, por exemplo, a inveja motivou Caim a matar Abel, ao passo que os cristãos a incluíram entre os sete pecados capitais.
 
Se você acha que estou exagerando, experimente admitir, em um bate-papo com colegas de trabalho, que alguém do staff da mesma empresa desperta a sua inveja. Você correrá o risco de ser alvo de fofocas e receber do grupo uma atitude de isolamento por ser considerado um elemento perigoso à organização. Essa pressão psicológica contribui para alimentar um sentimento de culpa ao nos flagrarmos invejando as habilidades do outro, como se isso representasse uma ameaça às qualidades necessárias para mantermos o status de “pessoas de bem”.
 
Nenhum sentimento por si só é bom ou ruim. Tudo depende da forma de administrá-lo. É preciso saber reconhecer e evitar a inveja destrutiva, que nada mais é do que a arma dos incompetentes, cujo gatilho está no prazer pelo insucesso do outro. É um tipo de sentimento relacionado a conflitos internos e corrosivos resultantes do complexo de inferioridade e da autoimagem negativa, podendo gerar ressentimentos e um profundo pessimismo existencial. Sem conseguir sair do lugar, a única válvula de escape é maldizer o sucesso alheio.
 
Por outro lado, quando bem gerenciada, a inveja pode tornar-se produtiva, tirando-nos do comodismo e nos impulsionando a uma competição saudável para enfrentar desafios. Evidentemente, o processo não é tão simples assim e exige que invistamos pesado em uma reforma íntima.
 
Imagine-se como um arquiteto, cujo principal projeto é melhorar a sua morada interior. E você pode começar iluminando os cantos mais escuros, como é o caso da inveja. A rigor, o simples fato de reconhecer a sua existência já é uma forma de reduzir as sombras e torná-la um sentimento mais produtivo e enriquecedor.
 
Em nossa vida não precisamos ficar como eternos voyeurs rancorosos do sucesso alheio nem nos colocarmos na posição de vítimas abandonadas pelo destino. É possível fazer da inveja uma alavanca que nos conduza a um maior comprometimento com a autorrealização e com um jeito mais produtivo de viver. Você não é o último ser humano da Terra por sentir inveja, mas pode estar entre os primeiros a transformá-la em fonte de inúmeras vitórias!
 
 
Eunice Mendes,  atriz, pedagoga e especialista em Comunicação Empresarial há mais de 30 anos com 03 livros já publicados

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