Sete dias e sete noites

Por: Maria Luiza Salomão

SETE dias e sete noites: sozinha. Mentira. Sozinha ninguém fica, hoje em dia, com celular e Whatsapp e Facebook e morando no sétimo andar de um prédio de 14 andares, cercada de prédios por todos os lados. Bom, então importa o que senti: sozinha! Mas não, como assim? Se estava com as palavras de C.L. e ela, ao pé do ouvido, a me acordar tantas mulheres em mim, uma pequena multidão. Pensando melhor, nem dormindo fiquei sozinha: os vizinhos do andar de cima pisavam forte, e algum pezinho se fazia sempre presente, a correr prá lá e prá cá, com calcanhar pisante, duramente. Que mané sozinha! Algumas eu sabia que me habitavam na minha casa cotidiana, quando com o perene companheiro; outras eu não conhecia bem, ou, francamente, desconhecia, e passei a conhecer com C.L.. De outras, ainda, tinha me esquecido, porque afinal a gente se distrai bastante enquanto vive, fazendo coisas habituais e pequenas, e outras grandes, igualmente habituais. Essa coisa do hábito é a coisa que mais distrai o eu-sozinha. Lá estava eu, fora do hábito, em frente a pilhas de livros de uma escritora que adora escrever silêncios (ela escreve silêncios, juro!), o que faz a gente acreditar que é possível ficar silenciosamente sozinha lendo quem sabe escrever assim, em meio ao tumulto geral da vida. Fora do hábito, sim, porque o tempo se estende como uma manta tricotada sem parar, sem interrupção alguma, só a fome para dizer para, ou o sono para dizer durma. Ouvi várias vezes ao dia o som de elevador que parava e que se movimentava: alguém abria ou saía de outro apartamento, o elevador fazia aquele som de elevador, e o silêncio reinava por momentos. Silêncio nem sempre silencioso, porque alguém, eu acho que no segundo andar, estava reformando o apartamento e uma máquina (?) fazia muito barulho. Uns guinchos de macaco sagüi, outros cantos de passarinho, que não me atrapalhavam, mas me faziam saber coisas de um lugar, simplesmente por estar atentamente viva. Nasceu uma curiosidade de saber dos sons da minha casa, aquela “do hábito”, caso ficasse assim, suspensa. Se fiquei com medo? Às vezes...porque um dia coloquei uma trave na porta da frente e uma corrente na porta da cozinha, que dá para a área do serviço. Achei graça do gesto. Mas não parecia ser medo de gentes de fora, que nunca entrariam aqui. Se eu fiquei com tédio? Fiquei: a princípio não sabia hierarquizar o mundaréu de leituras; depois, passei a ouvir vozes diferentes, e a me desdobrar no entendimento: dos textos de Clarice, das cartas que recebeu e escreveu, dos seus biógrafos, da sua extensa fortuna crítica. De rica ignorância eu me flagrei: do Brasil e de sua história, de Clarice e de sua história, e de mim, e da minha história. Tempo curto para imensos tesouros. Quero sete vezes sete dias e sete vezes sete noites.
 
Psiu, uma perguntinha: você aguenta ser livre por quanto tempo?
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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