Intenção e gesto

Por: Everton de Paula

Não me interessa saber se você é petista, tucano, comunista, capitalista; não, não me interessa – quero ser seu amigo, porque sei que há em seu olhar uma mensagem de bondade, de querer bem, de acolhimento.
 
Pouco me importa se você é corintiano, palmeirense, são-paulino, santista ou mesmo torcedor da macaca. Pouco me importa – quero ser seu amigo, porque sei de seu altruísmo, de sua vontade inabalável em querer o bem-estar do próximo.
 
Não me diz respeito se você é católico, evangélico, espírita, muçulmano, candomblecista, ateu, agnóstico... Quero ser seu amigo, porque sei de você em asilos tocando idosos, levando-lhes uma mensagem fraterna, ajeitando o melhor que pôde o agasalho sobre ombros frágeis que tremiam de frio.
 
Nem quero saber se você ama alguém de mesmo gênero que o seu – quero ser seu amigo, porque é conhecido o seu poder de compartilhar os mais nobres sentimentos com o próximo.
 
Para mim, a cor de sua pele não passa de frágil verniz da espécie humana – quero, sim, ser seu amigo porque sei que as faces das criaturas que formam sua família estão estampadas em sua retina, vibrando no mesmo compasso de seu coração.
 
Olha, sinceramente, não me interessa se você é afortunado, mora em mansão, possui carro de luxo, ou se não teve a sorte de possuir o metal suficiente para ascender aos bens materiais – de uma ou outra forma, quero ser seu amigo, porque a despeito da conta bancária, alta ou nula, você traz estampado na face um sorriso largo, bom, sincero, acolhedor.
 
E se porventura você ainda não experimentou a doçura dessas bondades, mas apenas o fel expelido pela inveja, despeito, mal-querer, não se preocupe – temos muito tempo pela frente. Ainda insisto em ser seu amigo e guardarei para mim as suas decepções e espalharei aos quatro ventos o seu aprimoramento, o seu avançar como pessoa, a sua melhora.
 
Estarei sempre por perto, à sua espera.
 
E se ainda partir de você o gesto traiçoeiro, o risco de corte certo, a bala que atinge meu peito, tombarei seu amigo, porque não foi você quem puxou o gatilho, mas sim a necessidade moral que não lhe ensinaram ou o imperativo de me tomar alguns trocados para saciar a fome de seu filho.
 
Pouco me importa a inocência, a ingenuidade dessas palavras;  insisto em ser seu amigo porque só assim preencherei os vazios do meu eu à busca da confraternização que transcende riquezas materiais, espiritualidade, cor de pele, opção por gêneros, tendências partidárias... 
 
Vamos, não se acanhe: venha de lá um abraço e receba de mim o melhor dos meus sentimentos. 
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras
 
 

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