JOÃO-DE-BARRO

Por: Isabel Fogaça

Procuro numa página de livro empoeirado, o significado que um poeta qualquer atribuiu à palavra “amor”. Encontro um canto triste; o bater de asas em um labirinto, e a construção de um ninho quente e acolhedor. Busco a definição de poetas velhos porque eles sabem muito mais do que eu. 
 
Neste universo de amar, fiz um embrulho inocente do meu coração, usei papel de pão e um laço bonito de cetim. Eu amando, sou sempre iniciante, semelhante a um filhote tentando levantar voo pela primeira vez, no pico mais alto do barranco mais perigoso. Eu tropeço na construção do meu ninho e desafino o meu canto, porque conheço o gosto do fim. 
 
O fim amortece a boca feito veneno, todo fim é feito de doses mortais: pequenas no inicio e mais precisas no final. O fim do amor é a retirada da faca cravada no peito, sobra dentro da gente a ferrugem do aço e o buraco da serra lambuzado de manteiga. 
 
Procuro a definição de amor nos poetas velhos porque eles possuem pássaros no lugar do coração, pássaros não podem ser embrulhados em papel de presente, eles arrebentam o embrulho e saem voando. Sutis, leves e libertadores. Cada poeta possui um pássaro diferente: há os canários do canto suave e marcante; os pombos imundos e vagabundos, procurando migalhas velhas de compaixão; e as águias terríveis e destruidoras, de garras afiadas e bicos devastadores.
 
Preciso procurar definições de amor em livros de poetas velhos, preciso transformar o meu coração em joão-de-barro.

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