Crônica Mineira

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Há alguns dias, em um hotel, eu minha esposa nos deparamos com um casal muito simpático, mineiros de Lagoa da Prata, cidade aprazível no interior da Terra das Alterosas, onde predomina o cerrado, cercada por muitos lagos e lagoas, beirando o município o Velho Rio Chico. Quem disse que Minas não tem praia? Pois Lagoa da Prata tem e é muito frequentada e lindíssima. O casal, simpático como já disse, é de falar pouco, como bons mineiros, mas depois de algumas horas de prosa, conseguimos ganhar a sua confiança. Vou narrar apenas o milagre e os locais, mas os nomes dos santos obviamente vão ficar preservados, para não gerar constrangimentos e um possível processo judicial. O nome dele lembra-me o de um lorde inglês e o dela, embora signifique um juízo da idade média, para mim exala o perfume de uma quase flor.

Contou-me ela que certa vez tomaram um ônibus de Belo Horizonte a Santos para embarcarem num cruzeiro pela costa brasileira. Como o lorde não anda de avião, ao término da viagem, deveriam retornar à terrinha de ônibus, mas o horário do retorno só se daria após muita espera. Então resolveram vir a São Paulo, cada qual arrastando uma mala e outras bagagens de mão, de onde haveria ônibus para Belo Horizonte com mais frequência. Assim fizeram, mas os ônibus que vem do litoral param em um terminal no Jabaquara e os de Belo Horizonte partem do terminal do Tietê, interligados pelo Metrô. A experiência dela com trens era apenas o termo mais comum entre os mineiros: trem bão, caiu um trem no meu olho, tropiquei num trem, etc. Como a opção mais razoável era o uso do Metrô, por ele optaram, mas já com uma pulga atrás da orelha, com medo de que acontecesse alguma coisa malevolente. O trem parou na plataforma, a porta se abriu, e ambos entraram sem quaisquer incidentes, embora houvesse muitos passageiros àquela hora. A viagem seguiu tranquila, mas ela estava muito preocupada e sempre atenta a cada parada para não perder a estação na qual deveriam apear.

Após mais de 15 estações, entre centenas de pessoas entrando e saindo, finalmente chegou à estação Tietê. A porta abriu, o lorde saiu, arrastando sua mala, com calma, devido ao grande número de passageiros que descem naquela estação e, quando ela estava para descer, as portas se fecham rapidamente, ficando apenas uma pequena abertura para não esmagar as mãos de algum incauto. Apavorada, largou a mala e tentou desesperadamente forçar as portas no sentido de abri-las, mas o trem movimentou-se e ela foi ficando com o rosto espremido entre suas mãos, com os olhos de pavor e arregalados na direção do marido que ficava na plataforma, simulando um adeusinho com a mão e intimamente pensando: acho que fiquei livre desta vez...

Dentro do trem, que já não estava muito cheio, ela chorava desesperadamente, pois não imaginava como faria para retornar aos braços de seu amado, principalmente que o celular dele havia ficado em sua bolsa. Uma senhora, percebendo o desespero da quase flor em prantos, procurou acalmá-la e, depois de entender a sua desesperação, orientou-a a descer na próxima estação, passar para o outro lado e pegar o próximo trem que viria em sentido contrário, até chegar à Estação Tietê, simples assim.

Na plataforma do Tietê, embora achando que tinha ficado livre, o lorde ficou preocupado, pois o celular tinha se perdido também, e achou melhor procurar auxílio com algum segurança do Metrô, que o orientou a esperar do outro lado da linha onde, com certeza, sua esposa logo apareceria. Assim fez e logo após alguns minutos ela apareceu com o maior sorriso no rosto, mas com os olhos ainda marejados.

Depois, já acomodados no ônibus para Belo Horizonte, rememoraram a façanha e não pararam mais de rir da desventura que os atribularam neste retorno ao lar.

Uai sô! Melhor que isso, só um pão de queijo acabado de sair do forno, acompanhado de um cafezinho passado num coador de pano, em um bule de metal sobre um fogão a lenha.
 

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