Luís da Câmara Cascudo no Museu da Língua Portuguesa

Por: Jamille Menezes

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Imagine se a “Babilônia” de Câmara Cascudo, a vasta biblioteca pessoal do maior estudioso da cultura popular brasileira, se transformasse em um labirinto mágico e colorido, de mais de 20 mil livros de verdade, milimetricamente encaixados um a um. Ao entrar nele, de repente, escutamos aquela voz peculiar dizer: “Ninguém está sozinho quando pensa”...Surpresa! você tem companhia... Logo viajamos no tempo para conhecer um menino especial, que viveu entre livros e se alimentou das coisas do mundo através da leitura — sua grande paixão.

E o casarão da velha avenida Junqueira Aires, lá de Natal, onde o Mestre Cascudo passou toda sua vida, surge diante de nós, numa viagem onírica através das paredes rabiscadas pelos ilustres amigos, da máquina de escrever que tecla sozinha, das histórias rascunhadas, fotografias e até a rede de dormir...então somos tentados a abrir as gavetas e reconhecer cada objeto, cada imagem e textura, nos dando conta de que fazemos parte deste universo chamado Cascudo.

Entre sons, imagens, cheiros e memórias, tecnologia e muita interatividade, as novas gerações são apresentadas ao homem que traduziu a memória coletiva do povo brasileiro, o etnógrafo, pesquisador, folclorista e escritor norte-rio-grandense Luís da Câmara Cascudo, o autor de mais de 150 livros, dentre eles Dicionário do Folclore Brasileiro e História da Alimentação no Brasil.

Batizada de O Tempo e Eu e Você, a exposição inédita no Museu da Língua Portuguesa, instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, teve abertura para o público no dia 20, seguindo até 14 de fevereiro de 2016.

O MENINO E O HOMEM, DA BIBLIOTECA E DA VARANDA
Se a infância foi sentida como em um labirinto de livros a alimentar a imaginação e o saber do menino, a juventude e a fase adulta são uma viagem real pela cultura brasileira. O cenário parte das referências autobiográficas vividas pelo próprio Cascudo e presentes em suas obras, da lembrança dos familiares e sobretudo do trabalho biográfico de muitos pesquisadores de Cascudo.

“Buscamos levar essa imagem real de Cascudo. São livros verdadeiros resgatados de sebos e indústrias de reciclagem que ganharam novo uso na exposição e em sua itinerância pelo Brasil”, disse o curador da mostra Gustavo Wanderley, diretor da Casa da Ribeira São Paulo. “A sensação desejada é que os públicos tenham a de uma biblioteca labirinto”.

A vida de Cascudo é contada quadro a quadro, como a da velha estante. Mas não uma prateleira comum. E sim uma estrutura gigante com 10,60m de largura, 4m de altura, onde estão expostos objetos que representam a linha do tempo de Câmara Cascudo: a passagem dos anos em que viveu e a obra literária que construiu, com objetos que refletem também as coleções do autor: etnografia indígena, etnografia africana, cultura popular brasileira, cultura popular estrangeira, alfaias, arte sacra e ainda objetos pessoais.

“Tiramos como referência a própria biblioteca de Cascudo, que a chamava de sua “Babilônia”. A proposta foi construir essa estante com objetos e livros, que somados, identificam o autor e sua vida: o Cascudo Boêmio, o Cascudo Devoto, e o Cascudo Homem Dicionário estão representados”, detalhou o curador. A estrutura da estante deve contribuir com a leitura de períodos cronológicos distintos dentro das décadas que Cascudo viveu (1898 a 1986), de forma que um olho mais aguçado possa identificar elementos de designer que marcaram épocas.

DANÇA: BASTA UM TOQUE PARA BAMBOLEAR

Sim, o Brasil é uma festa. Aliás, muitas: tem o carnaval, o São João, o ciclo natalino, com todas as duas danças e canções que viajaram no tempo através da oralidade do povo. Na dança, basta entrar para dançar. “A estrutura foi construída para fazer os corpos dos visitantes bambolearem. As paredes projetam imagens muito coloridas que nos colocam no meio de uma festa carnavalesca, por exemplo. O piso acolchoado provoca a sensação de instabilidade do corpo e a música vai se encarregar do resto”, detalha o curador.

E vamos cada vez mais conhecendo o Brasil estudado por Cascudo, com suas citações e pensamentos geniais. “A partir dos pontos de luz – backlights – vamos apresentar as frases marcantes do autor, como “O melhor do Brasil ainda é o brasileiro”; “Ninguém está sozinho quando”; O Brasil não tem problemas, só soluções adiadas”; entre muitas outras.

O GESTO, O SONHO E A VOZ
Existem muitas maneiras de se contar uma história, narrar fatos e descrever tempos guardados na memória. A comunicação imemorial fortalecida pela cultura popular, foco de estudos do Cascudo etnógrafo, será traduzida aqui. Os fantoches, mamulengos, bonecos e joão-redondos são os mestres protagonistas das narrativas orais da mostra. “É um teatro de bonecos gigantes e mecânicos com som e movimento; imagem e iluminação em rotação”, explica Wanderley. Também são apresentadas as lendas e mitos como o Lobisomem com 1.80 m, a Mula sem cabeça com 2,40 m de largura, O Saci, o boto e ainda TVs que registram a história da origem de gestos, como o estirar língua, o aperto de mãos, o abraçar…, tudo também disponível na linguagem brasileira de libras.

FÉ e SUPERTIÇÃO

Aqui é onde temos a apresentação da fé do povo brasileiro. Um povo que ao mesmo tempo é religioso e supersticioso. Nessa parte são apresentadas 1100 imagens variadas que representam a devoção de algumas das principais religiões brasileiras, reunidas. Em um piso de espelhos, podemos passear por 1,5 tonelada de sal grosso, 54 relógios que representam as “Horas Abertas”, mais de 300 ex-votos e 80 kg de alfazema. Se você tem medo de passar por debaixo de uma escada, então aqui é lugar para entender por que isso ocorre. Cascudo também explica o respeito pelo gato preto, a ferradura, entre outros objetos do nosso imaginário místico.

ALIMENTAÇÃO: TODO TRABALHO DO HOMEM É PARA SUA BOCA
Aqui chegamos à cozinha de Cascudo. Tem colheres de pau, panelas de barro, sacas de cereais, descanso de pratos, todos os elementos da cozinha tradicional brasileira. Será possível entender os conceitos da substituição e da incorporação de novos alimentos ao longo da história do Brasil, sem antes conhecer a ementa portuguesa, a dieta africana e o cardápio indígena, aquilo que Cascudo chamava de “infância” alimentar do Brasil. Os mercados foram transportados para dentro da mostra simbolizando as feiras, com seus barulhos e cheiros.

“Essa é a primeira exposição além paredes. No módulo da alimentação, especialmente, a gastronomia vai ganhar as ruas em debates e festivais gastronômicos pela cidade. Contaremos com a participação do C5 – Centro de cultura culinária Câmara Cascudo”, comentou o curador.

REALIZADORES E PARCEIROS
“O Tempo e eu (e vc)” é uma realização da Casa da Ribeira São Paulo e Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo. Apresentam a mostra, o Ministério da Cultura, o Governo do Estado de São Paulo e o Grupo Marquise. O patrocínio master é da Petrobras. Ainda patrocinam a exposição o Grupo 3 Corações. O módulo que retrata a Dança terá investimento do grupo O Boticário. A mostra recebe apoio da Global Editora e C5 – Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo. O projeto é beneficiado pela Lei Rouanet de incentivo à Cultura.

Mostra "O Tempo e Eu e Vc – Câmara Cascudo no Museu da Língua Portuguesa"

De 20 de outubro de 2015 a 14 de fevereiro de 2016
Museu da Língua Portuguesa- Estação da Luz
 

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