Uma lágrima para Chiachiri

Por: Sônia Machiavelli

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Durante toda a tarde da quarta-feira, 14, as duas secretárias da Diretoria do GCN, Anandha e Kelly, tentaram falar com Chiachiri sobre seu texto para o Nossas Letras, caderno para o qual ele colaborava há mais de quinze anos. Eu estranhava o fato de sua crônica não aparecer na tela do meu computador na tarde de segunda-feira, como acontecia quase sempre.

Às vezes havia um atraso de horas, mas na terça era certo que surgiria na minha caixa de e-mails. Ciente da exigência da periodicidade, não podia acontecer até de ele o enviar no domingo, em ocasiões especiais? Assim, no começo da noite daquela quarta, já um pouco ansiosa, liguei eu mesma. Ninguém atendia aos apelos do celular e imaginei que a família tivesse viajado. Frustrada, fechei o caderno, fui para casa. Por volta da primeira hora de quinta, o assovio do Whats App me chamou para a notícia que não queira ter lido: “- Mãe, o Chiachiri morreu.” Era meu filho Junior me comunicando o falecimento do amigo.

Conheci Chiachiri na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, cujos cursos foram levados para a Unesp depois que ambos estávamos formados. Ele terminava História quando ingressei em Letras. Seu envolvimento nos movimentos políticos já o distinguia e sua fama de aluno inteligente, culto e argumentativo estava então sedimentada. Alguns anos depois o reencontraria nas lides docentes e no jornalismo. Tornou-se amigo de Correa Neves e ambos mantinham longos papos no velho prédio da rua Ouvidor Freire. Gerações distanciadas por vinte anos dialogavam ali; experiência e conservadorismo de um lado; viço e contemporaneidade de outro. Romperam durante a administração Maurício Sandoval Ribeiro, quando Chiachiri era vice-prefeito, função também exercida por Correa no período anterior, de Lancha Filho. Mas retomaram a conversa interrompida anos depois, como se tudo não tivesse passado de mal-entendido. E continuaram se contando casos por muitos anos.

Como professor, Chiachiri destacou-se na vida acadêmica pelo seu saber mas também pela condição de manter com seus alunos uma camaradagem que seduzia os jovens para as aulas. Todos se tornavam seus amigos e isso era muito bonito de se ver. Como gostasse de conversar, atraía como público personalidades até divergentes que enriqueciam a troca de ideias sobre o cenário internacional, os rumos do Brasil ou a história de Franca.
A respeito de nossa cidade, sabia tudo, desde a sua gênese como pouso de tropeiros às etapas de evolução constante no tempo. Amava a Franca, assim com o artigo anteposto, indicativo de uma vinculação profunda. Seus títulos publicados, Do Sertão do Rio Pardo à Vila Franca do Imperador, de 1986, e Entrantes no Sertão, de 1991, constituem bibliografia essencial para quem necessite ou queira conhecer um pouco das origens de nossa formação. Chiachiri possuía a grande qualidade dos verdadeiros mestres que era ensinar com a especial naturalidade que faz o que é difícil ficar fácil de aprender.

Como historiador mostrava-se intransigente na defesa da memória urbana que via desconsiderada pelo poder público. Lutou enquanto pôde por melhores condições para o Museu Histórico que leva o nome de seu pai e se encontra em condições muito precárias.

No Comércio da Franca, ao entrar em novembro era a ele que os repórteres recorriam para elucidá-los com informações sobre a protagonista nas edições especiais do dia 28, aniversário da cidade: não tinha sido ele, afinal, o criador do arquivo histórico do município, credencial básica para magistralmente falar de nossa Franca? Tinha bom orgulho disso. Quando lhe perguntei que crédito deveria colocar em sua foto, para a versão on line do nosso caderno de literatura, ele me respondeu: “Como está no impresso, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras.”

Grande contador de histórias, transpunha para as letras o pendor literário. Seus textos curtos, de estrutura enxuta, eram narrativas lineares que traziam para a página cenas da vida cotidiana que poderiam ser vividas por qualquer leitor. Com início, meio e fim bem definidos, tinham a sua singularidade nos epílogos, inesperados ou plausíveis, mas sempre com aquele toque pessoal que define o estilo. Foi assim que interrompeu por aqui sua participação, no dia 14 de setembro, recortando um momento delicioso vivido pela netinha Amanda, de dois anos, incríveis olhos azuis e observação crítica semelhante à do avô, sempre atento a tudo e a todos. “Calma, mamãe” é um primor de crônica.

Raramente acontecia mudar de gênero, mas quando o tema eram o pai Chiachiri ou a mãe Carmelita, ele vestia seu mais fino manto lírico para falar de ambos, em geral a partir do olhar do menino que ia com o primeiro pescar no córrego dos Bagres ou com a segunda a olhar as coloridas e brilhantes vitrines de Natal na área central da cidade. Emocionava-se com os poetas francanos, e tinha especial predileção pelo malogrado Ygino Rodrigues, cujo soneto A Pinta Preta declamava com voz aveludada.

Ao relembrar Chiachiri, a todos nós que o conhecemos e admiramos, torna-se impossível não resgatar o humor inteligente, que só não beirava o sarcasmo, o riso mau segundo a etimologia grega, porque seu coração bondoso deveria repudiar essa manifestação amarga. Seu riso era franco, livre, caloroso, contagiante. Ouvindo sua risada, quem não o conhecia jamais poderia supor que partia de alguém que havia perdido a visão aos 35 anos. Brilhava em Chiachiri uma luz interior que supria a exterior e o fazia acender as palavras que escrevesse ou dissesse.

Neste outubro que hoje termina, sua voz se calou, sua pena emudeceu. Mas sua ausência já fala alto da falta que ele faz.
 

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