A morte de (outro) Rimbaud

Por: Sônia Machiavelli

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Quando vi o título do livro de Leandro Konder, A morte de Rimbaud, presente de Maria Luiza Salomão, de cara imaginei que iria ler sobre as últimas semanas de um ser humano extraordinário que dividiu sua curta vida radicalmente em duas. Na primeira, até os 19 anos, criou poesia que o tornou célebre na França e alhures. Na segunda, encerrada aos 37, foi comerciante de armas na África. Regressou a seu país para morrer dias depois num hospital de Marselha. Sofria dores lancinantes por conta de tumor no joelho.

A ruptura cirúrgica entre estas duas vidas muito impressiona leitores e biógrafos. Arthur Rimbaud, que publicou aos 17 anos Bateau Ivre (Barco Bêbado), abrindo portas à Modernidade nas letras ocidentais, e logo depois assinou dois textos fundamentais na literatura francesa (Uma temporada no inferno e As Iluminações), súbito disse adieu pour toujours à poesia, saiu de casa, mochileiro avant la lettre, e aos 23 já transitava por diferentes regiões africanas. Ali fez questão de apagar todo o passado literário e a ligação com outro poeta, Paul Verlaine; investiu em negócios complicados num continente inóspito; e se tornou deliberadamente tão anônimo que ao seu enterro só compareceram mãe e irmã. Essa vida daria um filme? Claro que sim. O mais recente, Eclipse de uma paixão, teve Leonardo di Caprio como protagonista.

Quando me preparava para mais uma leitura da via crucis do artista, descobri que o Rimbaud do Konder era bem outro. Já nos primeiros parágrafos me sobreveio estranhamento ao ler o que dizia um dos personagens: “Caminhei pela rua principal e virei à direita no caminho indicado pela placa “Grand Hotel de Combray”. Ora, Combray é a cidade das lembranças mais remotas do narrador de Em busca do tempo perdido, obra monumental de Marcel Proust. A história de Konder seria uma blague? Uma reverência? No final das 160 páginas cheguei à conclusão de que o ficcionista dera conta de reunir perfeitamente os contraditórios, enlaçando humor e homenagem com extrema elegância.
O enredo do romance policial gira em torno de um assassinato.

A vítima é homônimo do poeta francês e foi atirado de um morro por alguém que lhe era próximo. Há vários suspeitos, alguns também com nomes de escritores franceses: Rousseau, Claudel, Aragon, Malraux. Todos receberam os apelidos de um mecenas, que sustenta os tais literatos no bucólico hotel da pequenina Guariroba- que deveria ser goiana. Este homem generoso com os artistas é Bergotte, outra referência importante à literatura francesa. Só para contextualizar, é o personagem-escritor de Proust, calcado em Anatole France. O Bergotte tupiniquim contratou para gerenciar seu hotel um sujeito chamado Saint-Ex. Dá para linkar no ato a Saint-Exupéry, o autor de O Pequeno Príncipe?

Sete capítulos constroem a narrativa que têm por títulos os dias da semana, ordenados cronologicamente. Em cada um deles os narradores relatam fatos associados ao homicídio, como se registrassem experiências num diário. Um investigador de nome estranho, Sdruws, abre e fecha a história, intercalando considerações. Cria-se assim a trama, com pistas semeadas aqui e ali, bem dentro do padrão policial.

O equilíbrio da forma com capítulos de mesma extensão, a singularidade do estilo de períodos curtos e lapidados, as epígrafes com frases de Marx, Borges, Drummond, Shakespeare, Pessoa, Maquiavel, e dos autênticos Malraux, Rousseau, Claudel, Aragon e Rimbaud, revelam uma ficção produzida por autor cerebral e de alta erudição a quem talvez tenha faltado um pouco mais de paixão na construção dos personagens e das cenas.

Curiosamente, embora escrito à clef, num subtexto para leitores que conhecem os autores e obras mencionados, o romance pode ser lido com interesse por quem jamais tenha tido algum contato com a língua de Racine. O entendimento não é sacrificado de nenhuma forma ao leitor que nunca tenha ouvido falar de Rimbaud.

Quanto ao autor, filósofo, marxista, humanista, morreu há exatamente um ano. No mesmo mês de novembro e quase no mesmo dia em que se foi o poeta que o inspirou. Com A morte de Rimbaud, Leandro Konder presta bela e original homenagem à literatura francesa, que conhecia e amava profundamente.



 

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