Igualdade/Fraternidade/Liberdade

Por: Maria Luiza Salomão

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Não quero (por não me considerar capaz) refletir sobre Política, sobre Poder; articulações internacionais ou nacionais. Começo pelo íntimo mais íntimo da alma – a subjetividade a ser construída, para chegar ao humano.

1. Igualdade. Quando não vejo o igual exatamente igual a mim? Quando o humano é descaracterizado como humano, em meu íntimo? Quando julgo, confiro, ou não, valor a alguém, outorgando-me o direito de ser “justiceiro”, com meus parâmetros individuais de importância?

2. Fraternidade. Quando deixo de me solidarizar com outro ser, em nome de meus interesses? Em nome de quais vaidades? Em nome de que princípios, eu me aparto do conjunto de pessoas às quais passo a ver como inimigos, demonizados, a quem preciso combater, excluir, atacar, e me auto-justifico, ao usar de meios bárbaros?

3. Liberdade. Quando, em nome da segurança do meu corpo físico, da minha propriedade, dos seres que amo, eu renuncio ao meu livre arbítrio, à minha capacidade de me assegurar o direito inalienável de ser como sou, de me comportar como sou, de me pautar segundo aquilo que me constitui inviolável, intransferível, incomensurável, inconsútil?

Acompanho os tristes acontecimentos que nos levam, na segunda década do século XXI, a pensar na declaração (explícita) de Guerra Mundial, em um mundo tão globalizado. Assistimos – em tempo real, se diz – informações sobre o que ocorre em pontos distantes do planeta, e que nos permite acesso, inclusive, à manifestação individual – nas mídias sociais – o que nos confere uma estranha responsabilidade.

Não somos organicamente unos, abrigamos impulsos contraditórios, paradoxais. Fidelidade x Luxúria, Lealdade x Interesses egoístas. Devoção a valores abstratos (respeito, amizade, solidariedade, compaixão, “caritas”, reconhecimento) e a luta ininterrupta interna com comezinhos sentimentos: preconceitos, racismo, intolerância, crueldade primitiva que condena violentamente, arrogando-se direitos a vinganças sádicas e prazeres mortíferos, assassinos e suicidas.

Relembro a coragem de Hanna Arendt, uma judia, após o holocausto, reportando o julgamento de Eichmann, um nazista capturado e julgado em Jerusalém, responsável pela “solução final” para os judeus: extermínio, na Polônia geralmente. Eichmann não é retratado por Arendt como um demônio (como o descreviam os ativistas judeus), mas alguém terrível e horrivelmente normal. Um típico burocrata, que cumprira ordens, com zelo, amor ao dever, sem considerações acerca do bem e do mal.

Temo a demonização de raças e indivíduos, tanto quanto temo a barbárie. Demonização também é barbárie, efeito e causa do Terror. Que tipo de humanidade confronta o Terror?

Há que temer os perigos da alma, que amalgama medo, condenação, culpa e executa uma expiação compulsória ao que não espelha, narcisicamente, o que dele espero. Felizmente, para a sobrevivência do humano, coexiste, no amálgama interior que nos constitui, a capacidade de empatia com o estrangeiro (o não-eu), de reconhecer – nele - o pior e o melhor que abrigo em mim.

“Sentinela sou”, canta Mílton Nascimento. Sejamos sentinelas, em tempos sombrios, pela sobrevivência do humano, em mim e no outro. Cuidemos de nossas armas de defesa e de ataque, sem a banalização do que seja o “mal” ou o “bem”.
 

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