Doce que te quero doce

Por: Eny Miranda

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"Parecia-me que um destino mineral, de uma geometria dura e inelutável, te prendia, [...], enquanto outras alegres cidades, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer. [Agora] a vida não é um prazer, mas uma pena.” Carlos Drummond de Andrade - Vila da Utopia

Há um contínuo trabalho de parto acontecendo no íntimo da terra, que, em sua pluralidade, é capaz de conceber e gerar filhos tão díspares quanto a água e o fogo, a pedra e a pétala, a folha e o ferro. São sementes revelando seus segredos, metais ferventes cuspindo seus corrosivos humores...

Ou são bolhas que se vão insinuando entre rochas, borbulhas que vão rompendo as camadas do solo compacto em busca da superfície, e, aflorando, seu choro é canto suave, e suas lágrimas são lâmina cristalina de água doce e pura, que mata a sede e enche os olhos de beleza.

Logo essa água busca seu caminho, encontra seu curso e segue, tímida, a princípio, em leito raso e estreito, mas, aos poucos, vai ganhando corpo e desenvoltura, recebendo outras águas, vindas de outros cursos, nascidas em outras paragens.

Seu alimento é a chuva e a alegria de ser, ela mesma, fonte de alimento. Seu ventre abriga mil espécies de peixes e algas e liquens. Seus braços abraçam mil verdes (e rubros e rosas e ocres e malvas e brancos...). Um milhão de bocas sedentas se abrem a seus frescos sumos, que as beijam e penetram e satisfazem.

E assim ela segue sua vida, feita de eternas sucessões; cumpre seu caminho circular, passando pelo oceano (último desejo, nunca satisfeito: adoçar as águas marinhas), sobe às nuvens e volta à terra.

Esse é o curso da água, do rio. Doce curso de vida.
Ou deveria ser.

Esse era o curso de um rio, Doce, curso de vida.
Interrompida.
 

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