Não sei por quê

Por: Angela Gasparetto

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Não sei por que, mas ultimamente estou sentindo falta das longínquas lembranças da primeira infância.

Não sei por que, sinto falta do cheiro inebriante do orvalho logo no amanhecer.
Do galo cantando e dos barulhos do curral na hora do retiro do leite.

Sinto falta dos sacos de amendoins guardados (escondidos de nós) e do gosto de pé-de-moleque que minha mãe fazia e que era sinônimo de alegria.
Do doce mais gostoso do mundo, o prazer mais gostoso do mundo.

Sinto falta do cheiro do “Vic vaporub” que era passado próximo ao nariz e que significava: “eu cuido de você”, “eu te amo”.

Sinto falta dos coquinhos amarelos que comíamos mesmo do chão, eu e minha irmã.
Da goiabeira, e da laranjeira da qual caí um dia ... E fiz tudo para não chorar, se não apanhava...

Sinto falta das balas que meu pai trazia da cidade e descobri mais tarde: era a maior manifestação de que ele nos amava, porque nunca conseguiu dizer isto...

Não sei por que, sinto falta das “benzições” da minha bisavó, do cheiro da vela que tremulava para a sua santinha, do tique-taque do seu relógio, da atmosfera quase sacra do seu quarto.

Não sei por que, estou sentindo falta da água da bica que corria sem parar na sua casa e dos “beijos” plantados na sua cerca e que só ela tinha.

Não sei por que, mas ultimamente sinto falta do fogão a lenha, do crepitar das brasas logo cedo e daquele cafezinho que sobrava por último e era meu e de minha irmã... empoleiradas no rabo do fogão.

Não sei por que, mas sinto falta dos mamões e melancias maduros que eram nosso presente mais sofisticado, doados por um amigo da nossa família, pessoa da maior pureza de coração que conhecemos...

Daquele sabor que era único, talvez porque alguém se lembrou das meninas da D. Lourdes, colheu e guardou-os para nós...

Sinto falta dos paletós de flanela feitos manualmente pela minha mãe. E dos vestidos de florezinhas amarelas que era lindo, porque era novo.

Sinto falta, talvez porque, hoje, minha mãe, meu pai, minha bisavó, a maioria dos que nos manifestaram amor, não estão mais aqui...

Não sei por que a gente aprende tão tarde, que há inúmeras manifestações de amor. E as mais verdadeiras, são as mais singelas...
 

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