Mulheres de coragem

Por: Sônia Machiavelli

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“É mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”, disse Einstein. O filme norte-americano The Help, traduzido para o português como Vidas Cruzadas, é boa amostra do que quis dizer o físico. As formas da discriminação que vitimou negros no Sul dos Estados Unidos, da colonização até os anos 60 do século passado, e mesmo depois, revelam como o processo foi arraigado, cruel, muito difícil de ser revertido. Se é que o foi totalmente.

The Help é a transposição para a tela do romance homônimo de Kathrin Stockett, nascida em Jackson, capital do Mississipi, em 1969. Cinco anos antes desta data morria, não muito distante dali, em Savannah, na Geórgia, a ficcionista Flannery O’Connor.

Há uma enorme distância literária entre elas- de forma, de fundo, de trajetória. Stockett começou aos 39 anos, constrói relatos lineares em linguagem coloquial, enquanto O’Connor morreu com a mesma idade legando à cultura ocidental uma obra original e consistente. Mas para um ponto as duas escritoras convergem: o espaço físico onde ambas nasceram e no qual fazem transitar seus personagens é o Sul marcado por forte preconceito racial.

Em O’Connor, a complexidade temática, impregnada de dogmas da igreja católica, de humor rascante e sentimento gótico que a aproximam de Carson McCullers e Tennesse Williams, não deixa o leitor perceber até que ponto a escritora torna a condenação do preconceito o leit-motiv de sua literatura realista , estranha, enfeitiçante.

Já em Stocket, seu posicionamento é claro, até confessional, na medida em que tem afirmado que sua narrativa é homenagem à empregada negra que a criou, tornando menos dolorosa uma infância machucada pelas desavenças dos pais: “escrevi para encontrar respostas às minhas próprias perguntas, para acalmar minha mente angustiada a respeito da vida custosa de Demetrie”, disse por ocasião do lançamento do filme do diretor Tate Taylor, que concorreu ao Oscar em 2010 com Inverno da Alma.

Vidas Cruzadas se organiza ao redor de personagens femininas. Eugênia ‘Skeeter’ Phelan (Ema Stone), moça da “boa sociedade” de Jackson, volta da universidade determinada e se tornar escritora e aceita trabalhar como frila para um jornal de Nova York. Desde sempre curiosa diante das relações entre bancos e negros que testemunha, toma uma decisão. Resolve mudar o perfil da coluna que lhe dão para escrever. Em lugar de conselhos domésticos, propõe à sua editora entrevistas com as empregadas negras de sua cidade- humilhadas, mal pagas e desrespeitadas o tempo todo pelas patroas fúteis que gastam o tempo em festinhas e baralho.

Aceita a proposta, de início Skeeter tem dificuldade em conseguir que as empregadas relatem suas vidas. Vencida alguma resistência, a primeira a falar é a contida Aibileen (Viola Davis), sob condição de anonimato. Depois chega a expansiva Minny ( Octávia Spencer)). E num subtexto que só vem à tona no final da história, a sábia Constantine, negra que criou Skeeter . O enredo mostra, através das três, a vida de outras que arrumam, lavam, cozinham e cuidam das crianças brancas de Jackson. Mostra também que se bebês brancos crescem, tornam-se adultos, herdam as empregadas, ou as filhas destas, o status quo é mantido. Neste cenário, microcosmo dos Estados Unidos dos anos 60, alguém precisa romper com o padrão.

Skeeter, vencendo seu próprio medo, decide mostrar a verdade dos fatos através da escrita que desvela o clima de discriminação e exploração das brancas sobre as negras. Ao dar voz às oprimidas, a jornalista não só faz sua denúncia pública como contribui para que elas próprias se ouçam e reflitam sobre o contexto em que vivem. É esse segundo aspecto que vai, na verdade, desencadear alguma mudança no cotidiano das mulheres negras.

O tema pesado poderia ter conferido tintas sombrias ao filme. A sensibilidade do diretor Tate Taylor em aproveitar situações divertidas de forma sutil, sem dar margem ao grotesco, conferiu equilíbrio à trama. Ao mesmo tempo, funcionou como possibilidade de catarse para o espectador que adere desde os primeiros momentos à condenação de uma sociedade racista, injusta, autoritária. Ridendo castigat mores, diziam os romanos. Continua valendo.
Quanto à opção por criar um final aberto, sem happy end romântico, isto tornou a história mais realista. O fato de a reportagem da corajosa Skeeter ter sido sucesso no País e se transformado em livro não significa de fato uma salvação. O preconceito permaneceu no final do filme. Há um longo caminho a trilhar, e a última cena é icônica desta certeza . Também são icônicas as imagens em preto e branco da tela dos televisores . O rock de Elvis Presley a cadenciar a velocidade de um carro. O assassinato de John Kennedy.

O mundo mudava. E continuou mudando, sem que o sonho de uma sociedade sem preconceitos raciais tenha se concretizado integralmente. Ainda não aprendemos a conviver como irmãos, embora saibamos voar como pássaros e nadar como peixes, como disse outro sulista ilustre, Martin Luther King, assassinado em 1968 por promover longas marchas a favor de direitos civis para os negros.

Vidas Cruzadas é um filme obrigatório para quem acredita que o segredo de mudar consiste em concentrar energia para criar o novo, em lugar de usá-la para se debater contra o antigo.
 

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