Covardia

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Finalmente, munido de todas as forças do corpo e do espírito, estou pronto.

Depois de reflexão demorada, profunda; depois de me amparar em muletas de toda espécie, tomo decisão e pratico, pela primeira vez na vida, um ato de real coragem: confesso que sou medroso.

Tenho muito medo da vida. Toda manhã ela arregala seu olho brilhante de incertezas, de inseguranças e de dúvidas que se arrastam ao longo de toda a tarde. Quando, exausto, alcanço a fronteira entre o dormir e o acordar, ela ainda me assusta com seus disformes rostos.

Tenho medo da morte, cujo cavalgar, empunhando foice e espalhando risada esquelética me apavorou desde sempre. E me apavora também, e mais, quando ela se apresenta disfarçada de placidez e serenidade em rostos precocemente adormecidos.Tenho medo da chuva e nunca acredito que o teto do mundo jamais desabará. A água cai, e os gritos do trovão me são mais convincentes que as teorias científicas.

Tenho medo de passar embaixo de escadas. Imagine se despenca, lá do último degrau, uma lata de tinta e meus respeitáveis cabelos, a custo encanecidos, fiquem amarelo-ouro?

Tenho congênito medo de assombração, e meus olhos guardam insistentemente muitas. Obrigado, eu percorri trilhas ladeadas de sombras e de vultos. As mãos côncavas rezavam para que o lume da lamparina não se apagasse. Mas o vento impiedoso ajudava as assombrações a se esconderem atrás de cada árvore, atrás de cada curva.

Tenho medo de levar um tiro no peito e ver uma bala silenciar o coração que só quer afago.

Tenho medo de tudo: de ficar doente, de ficar velho, medo das pessoas muito caladas e das que não fecham a boca; das falsamente solícitas e das violentas; medo de perder meu teto e medo de ficar rico e me perder.

Tenho medo de tudo.

Acho que sou mais que medroso. Sou covarde.

Tenho medo – o medo maior – de, um dia, sentir saudade da mulher amada.

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