Caneta paciente à espera de um amor

Por: Gabriel Careta

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Às vezes o escritor não tem pretensão de escrever coisa alguma num determinado momento, mas, mesmo assim, saca caneta e papel e prostra-se ante os instrumentos em atitude meramente contemplativa. Nessa compleição indisposta ao ofício, ele faz um turbilhão de pensamentos que gostaria de colocar no papel, e tal como o amante que aproxima seus lábios dos da mulher amada sem, contudo, tocá-los, apenas aprecia a beleza que as palavras teriam se ali fossem postas juntas. Deste modo, consegue saborear por mais tempo o prazeroso ato de escrever, concretizando melhor suas ideias e amadurecendo suas histórias.

Assim como no beijo que custa a ocorrer, cria-se uma deliciosa antecipação do ato divino que está por vir. Pois não é o beijo em si, tal como não é a escrita propriamente dita, que é prazeroso, e sim sua lenta e tão desejada conquista.

Quanto maior a antecipação criada, mais sublime será o beijo dado  e mais épica será a história contada. Na medida certa, a espera premeditada leva a uma verdadeira apoteose do ser paciente; eleva-se à qualidade de um Deus, mestre absoluto do amor e de seus pensamentos.

E por que fazer a óbvia comparação entre o amor e a escrita? Pois todo bom escritor já percebeu que apenas aquele que ama deveras consegue escrever com sinceridade.

Fico horas a contemplar o papel em branco com uma caneta ao meu lado. Inúmeras palavras e frases desconexas me vêm à mente em busca de coesão. Quando penso na mulher que amo ou a vejo, outrossim, a contemplo em todas as suas qualidades e defeitos por um longo tempo. Quando atinjo o ápice da contemplação, posso escrever e amar em intensidades inimagináveis.

É certo que tudo na vida é passageiro, salvo a contemplação e essa só nos deixa junto do nosso último respiro. Por que agir rápido e ser feliz por poucos instantes, quando contemplando posso ser feliz a vida inteira?

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