Los Caracoles

Por: Sônia Machiavelli

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Quando, na noite de 4 de janeiro, saímos do Azafrán, “donde cada plato busca expresar con respeto la cocina tradicional argentina”, ficou claro que o dia seguinte seria exigente. Voltaríamos a Santiago para entregar a Van e de lá voaríamos para o Brasil. Foi neste instante que percebi turvar-se o semblante de minha nora Milena que perguntou se não seria melhor entregar o carro em Mendoza e pegar um voo. Junior foi incisivo: “ impossível, o contrato com a locadora exige a devolução no aeroporto chileno.”

A travessia dos Andes fora deslumbrante uma semana antes e a ela retornávamos em pensamento e palavras a toda hora. Guardaríamos na alma por toda vida o impacto causado por aquele monumento da natureza. Procurando explicações para a preocupação de Milena, imaginei que talvez tivesse se impressionado com conversa que eu lhe relatara. Na manhã daquele dia, tinha encontrado na Plaza Independencia uma avó que também levara o neto para brincar. Boa de conversa, me contara sobre gigantesco congestionamento que deixara na véspera motoristas parados por mais de seis horas em algum ponto do Paso Los Libertadores, por conta de avalanches de pedras. Eram comuns nesta época, me explicou.

Na terça, saímos ao meio-dia. Precisaríamos chegar a nosso destino antes do anoitecer. Mas como o sol vinha se pondo por volta das nove, acreditávamos ter tempo suficiente para vencer 365 km. Ao deixar a cidade passamos ao lado do portão de ferro do Parque General San Martin, o maior da América Latina. Seguimos na direção de Luján de Cuyo, cujas vinícolas produzem um dos melhores Malbec do mundo. Avistamos de novo o Lago Potrerillos. Divisamos outra centena de parreirais. E chegamos à porta dos Andes, Uspallata, palavra que no idioma quíchua significa “Bolsão da Morte”. Milena queira provisões, temerosa de que algo pudesse nos reter. Compramos água, bolachas e chocolates no único comércio aberto. Tudo estava cerrado: era a tradicional hora da siesta e o pueblito ronronava.

Alguns quilômetros além entramos na Ruta 7. Milena voltou a se eclipsar. Seu coração se apertava, eu adivinhava; e João intuía que algo estranho se passava. ” A estrada das montanhas é bonita, mamãe”, dizia ele como se tentasse acalmá-la. “É sim, meu filho, mas muito perigosa”. Nada mais verdadeiro; tão linda quanto potencialmente fatal. E disso havíamos tido provas na ida, com vários trechos sem áreas de escape. Resvalar nas pedras e cair no precipício não deveria ser tão incomum, a se prestar atenção nas centenas de cruzes, capelinhas e pequenas lápides que os olhos iam divisando ao longo do caminho. “A maioria é para marcar morte de montanhista”, suavizou Junior quando o filho quis saber o que era aquilo. “Viu, mamãe, é de montanhistas”, reproduziu o menino para, ele também, acalmar a mãe.

Como na estreia o êxtase diante do espetáculo oferecido pela cordilheira tinha sido maior que o medo, havíamos sido hipnotizados pelas originais formações geológicas, a imensidão da cadeia de montanhas, as neves eternas nos cumes, os degelos transformados em cachoeiras, os rios puríssimos formados pelas águas das alturas ou coloridos pelos minérios que arrastavam, a rara presença humana, as perturbadoras aves de rapina, a ausência de verde, as construções abandonadas aqui e ali por quem não suportara tanta solidão, poucos acampamentos de apoio a montanhistas com cercadinhos onde descansavam mulas de carga. E havia os túneis, dezenas. Pequenos, médios ou longos como o Cristo Redentor, de 3 km, cujo nome deriva da estátua erguida numa elevação próxima. Que impressionante o engenho humano perfurando os gigantescos blocos de pedra- eu pensava naquelas alturas originariamente desbravadas pelo exército do General San Martín.

Até Puente del Inca permanecemos tranquilos. Estávamos quase na metade do caminho; tínhamos rodado 175 km, subíramos a mais de 4 mil metros. Paramos neste povoado de 50 famílias, metade delas pertencente à vila militar. Fugimos do vento gelado entrando na lanchonete rústica, paredes forradas com fotos do Aconcágua, o “Sentinela de Pedra”, 6962 metros, ponto mais alto das Américas. As milanesas com papas fritas estavam ótimas e nos aqueceram. A aduana nos esperava alguns km à frente e durante duas longas horas, incomodados pela temperatura que baixava, permanecemos em fila que se movimentava lenta.

Liberados enfim pela excessiva burocracia de três sucessivos guichês, nos preparamos para a prova crucial, o desafio representado pelas trinta curvas, o maior dos temores de Milena. Não sei se foi impressão minha, mas acho que a vi resgatar um terço da bolsa quando apareceu a primeira placa: Caracoles 30. Tenho por certo que a vi baixar a cabeça de forma contrita antes de perguntar se João mantinha seu cinto atado. Com um jeito meigo ele confirmou que estava “tudo certo, mamãe”.

Tínhamos iniciado o trajeto perigoso quando ele começou a falar sem parar. “Vovó, o que é Por-ti-llo escrito na placa?” É uma estação de esqui que fica pertinho. “Tem lhama lá?” Deveria ter, são animais que gostam deste tipo de lugar. “Um dia ainda vou fazer rafting com meu pai no rio Mendoza”. Ah, eu não quero estar por perto não... Ele ria alto, parecendo se divertir com minha observação. Seguíamos entre caminhões pesados que, às vezes, olhados por trás, pareciam na vertical. “Que engraçado, por que o caminhão está empinado, vovó?” É que ele está numa descida muito forte, João. Ele ria mais alto, como se alegre com a descoberta.

O pai mantinha-se quieto e muito atento: ali não seria permitido um deslize. A mãe mal se mexia: seus lábios levemente se movimentavam naquilo que, eu tinha certeza, eram orações. Atrás João perguntava. Faltam quantos caracoles, vovó? Faltam muitos, João. Muitos quantos? Vinte e cinco. “Mamãe, faltam só vinte e cinco caracoles, logo a gente vai chegar lá embaixo.”

Foi na vigésima curva, depois de gravar no seu celular imagens das primeiras, que ele olhou preocupado para os pais e voltando-se para mim, convidou: “Vó, vamos fazer contagem regressiva?”

Passamos a contar. Agora só faltam dezoito... quinze... dez...Entre uma e outra ele fazia comentários curiosos, lembrava algo divertido. Eu admirava o comportamento dele, preso no carro há tantas horas. Cinco... três... dois... um! Pronto. Acabava - se La Bajada de los Caracoles.

João bateu palmas, deu vivas, esticou a mão e fez um carinho na mãe, que deveria estar finalizando o quinto mistério. Junior relaxou a musculatura dos ombros. Meia hora depois começaríamos a avistar as folhas recortadas dos plátanos, o verde fosco das oliveiras, o enfileiramento das parreiras, o perfil urbano dos primeiros bairros de Santiago; e um bem-vindo supermercado, amplo e limpo. Descemos para movimentar o corpo. E como se tivéssemos combinado, parabenizamos João que olhava o crepúsculo amarelado e dizia que as cores lhe lembravam omelete. Cada um falou algo assim parecido:

_ Olhe, você foi um grande companheiro em toda a viagem, mas nesta segunda travessia você se superou, foi formidável. Não deu nenhum trabalho! Ficou tranquilo e alegre o tempo todo!

Ele ouviu. Depois nos olhou e disse : “Eu menti pra vocês.”

- Como? Mentiu?! Mentiu o quê? Por quê?- perguntou a mãe.

- Eu menti pra vocês, mamãe. Eu estava morrendo de medo dos Caracoles.

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