Caminhando com Nélida

Por: Isabel Fogaça

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O ano inicia mais uma vez, e como é de se esperar, promessas de mudança de hábitos aninham-se a ele, seja por idealizações financeiras, abandono de vícios ou simpatias para que um ator global te peça em casamento antes dos 30. Todas essas combinações clichês fazem parte do pacote. No entanto, o que me desperta maior atenção são as idealizações por perda de peso. E eu, definitivamente, não consigo ir à academia.

Cotidianamente tenho encontrado amigos que não via há tempos, e com um pouco de emoção trançada com saudade, acabo fazendo elogios: “Como você está bonito!” E como resposta ganho: “Ficarei melhor quando eu perder quatro quilos.” Ou a situação pode ser inversa, afinal, minha tia-avó sempre faz questão de me oferecer bolo de milho como isca para a oportunidade de dizer quão engordei desde que fui morar sozinha.

Pensando nisso, certa vez, vi uma entrevista com o editor da escritora Nélida Piñon. Entre todas as coisas românticas que ele disse sobre o talento e a singularidade de sua escrita, teve uma que me tocou com maior profundidade. Em suma, a Nélida é muito cuidadosa com tudo que faz, o que a autora cria é meramente por paixão, e por isso, quando não gosta de alguma edição diz com desvelo: “Não sou apaixonada por isso”.

Desde o ocorrido, pauto minha vida em coisas pelas quais sou ou não apaixonada. E por este motivo, opto por caminhadas noturnas ao invés de frequentar academias. Confesso que já tentei, porém, sinto um enorme desconforto em mover-me em um aparelho que não me leva a destino algum, a música estilo balada no volume máximo perturba-me. Então, olho para os televisores ao meu redor e vejo corpos de biquíni que eu nunca conseguiria nessa vida sem me submeter a uma cirurgia plástica. Admiro o esforço de quem consegue esta proeza, mas não troco as lagartixas famintas escalando paredes, recados apaixonados em orelhões públicos e o cheiro da dama da noite por esteira nenhuma.

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