Capoeiragem

Por: Isabel Fogaça

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Foi no ano de 2002 que me encantei pela beleza de uma roda de capoeira, e mesmo sendo leiga eu ficava em casa repetindo os movimentos que via na rua. Em 2004 minha vida mudara significavelmente, pois foi o ano em que decidi mergulhar nos treinos junto de mestre, professores e graduados. Lembro-me de que em meu primeiro jogo, senti que minhas pernas formariam um nó. Dizem que apelido na capoeira é tradição, e me batizaram carinhosamente de “Pantera” devido minhas pernas compridas e esse jeito desengonçado.

Nos meses iniciais de treino, havia mais de cinquenta pessoas que faziam parte do grupo; com o tempo, o número foi caindo por motivos muito pessoais. Foi quando meu professor me escreveu uma carta que guardo até hoje com muito carinho, onde ele dizia: “Ei, Pantera! Não deixe aventura qualquer atrapalhar seu destino na capoeira. Não abandone!”. E eu não abandonei, continuei treinando por anos, olhava ao meu redor, e via que eu era a única mulher ali entre vários graduados e formados. Esse foi o meu maior desafio e também minha mais branda evolução.
 
Dentro desta jornada participei de campeonatos onde fui premiada, recebi minhas medalhas como se fossem ouro, pois eram o resultado de uma época em que eu treinava todos os dias, tanto na academia quanto na pracinha, sem  hesitar. Aprendia muitas coisas, fiz muitos amigos, desenvolvi acrobacias, fraturei o joelho, a costela, e a coluna, e sempre estava disposta a continuar: amarrava minha corda na cintura e jogava como se a dor não existisse, porque minha paixão era maior do que qualquer desafio global.
 
Foi assim por 12 anos, porque sinto que na roda de capoeira cabe qualquer um, cabe qualquer raça, qualquer credo, e por isso quebra-se qualquer preconceito. Certa vez ouvi um grande mestre dizer que a capoeira é um teatro e para participar você precisa ser um bom ator. É por isso que quando tiro minhas meias e sinto o chão da roda, penso em Aidê, escrava africana fugindo para Camugerê para não se casar com o feitor. Penso no sangue negro que corre nas veias brasileiras, na luta por liberdade através da estratégia do maculelê. Penso em Zumbi, em Pastinha, Bimba e Besouro. Penso que dentro da capoeira não existe sexismo, elitismo, não há hierarquia intelectual. Penso que o capoeirista é um mágico, um matemático e um bailarino.
 
Vejo que a capoeira diminui distâncias, quebra dificuldades, pois passo meus olhos pela roda e vejo diversas culturas, pessoas com necessidades especiais, mulheres, homens dentro de um mesmo terreno. Formei meu caráter, minha estratégia de vida e colaboração através desse esporte, pois nele consigo ser eu mesma através de minha alma. Por isso, agacho-me ao pé do berimbau, peço a Deus que me dê proteção, agradeço aos meus professores e mestres e luto, acima de tudo, com paixão. Axé capoeira. 

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