Quem se importa?

Por: Sônia Machiavelli

310727

Dia desses fui  a uma loja em busca de presente para amiga que aniversariava. Andei pelo térreo, subi ao piso superior, de lá observava  as novidades chegadas recentemente. E pensava na qualidade do design brasileiro quando ouvi a freada de um carro. Automaticamente olhei para a via bonita que tem em seu canteiro central árvores magníficas. Um veículo tinha acabado de  atropelar cão de tamanho médio, cor castanha, provavelmente vira-lata, conhecido da vizinhança porque por ali costumava vagar todas as tardes, conforme ouvi dizer a uma das vendedoras. A cena me desestabilizou  porque vi que o motorista havia fugido sem dar a menor atenção ao animal que, de longe, parecia agonizar. A vendedora que me atendia mostrando-me algumas peças ligou-se rápido ao fato e acionou pelo celular um socorro veterinário.

 Entre o telefonema dela e nossa descida à rua, passaram-se alguns minutos. Quando chegamos ao meio-fio da  ilha central onde o animal estava, outro cão, do mesmo porte do ferido, mas de cor negra, já havia se aproximado e o farejava, como se para ter certeza  de que estava vivo,  o que de fato acontecia. Respirava, olhos abertos, mas  gania porque  estaria sentindo  dor. Pelo que nos era dado observar, sua pata direita sofrera grave dano. Chegaram dois curiosos que seguiam em suas bicicletas, olharam e voltaram ao seu percurso, aparentando certa decepção diante do fato de que a vida ainda pulsava sob aquele pelo encardido.  Depois, um comerciante por ali estabelecido veio se certificar do que ocorrera, pois naquele  mesmo local  um acidente tinha vitimado  idoso dias atrás. Satisfeita a curiosidade, retornou ao seu negócio.
 
Fiquei mais um pouco, mas precisei voltar  à loja enquanto a funcionária aguardava a chegada do socorro. Ali, cada vez mais agoniado, o cão negro emitia sinais de que estava sofrendo diante do semelhante incapaz de se levantar e seguir caminho. Esfregava uma das patas nas costas onde pequena mancha de sangue lembrava por seu formato uma flor. Rodeava o outro largado no asfalto. Parecia um tanto desnorteado. De vez em quando erguia a cabeça  e olhava para o céu, como se pedindo ajuda. Naquela altura, recaindo a cena de novo sob meu olhar a partir da janela da loja, tive a intuição de que havia, junto àquela  amizade canina, algum tipo de compaixão. Enquanto o socorro não chegou, o Negro  permaneceu ali o tempo todo, como se sua presença fosse um conforto para o Castanho. Aliás, quem diz que não era?
 
Fui embora levando comigo a imagem de ambos. Só muito tempo depois  recebi a notícia de que o ferido havia sido enfim levado para uma clínica veterinária, onde seria cuidado. O outro, fiquei sabendo, esperou  as portas do furgão se fecharem e o motorista arrancar para só então bater em retirada. “ Depois que o carro partiu, ele desceu em direção oposta”, me contou pelo WhatsApp  a moça da loja. 
 
Eu ainda me afligia com estas imagens na memória, me perguntando se o cão havia resistido, quando deparei com notícia incômoda na sessão T’aqui, do portal GCN.  No dia posterior ao acidente, bem distante de Franca, o ambulante Jadson da Silva Pereira foi esfaqueado  por dois homens na praia conhecida como Lagoinha do Norte, em Florianópolis. Morreu em poucos minutos, enquanto os assassinos fugiam no meio da multidão. O cadáver do vendedor de queijo coalho ficou estirado na areia disputada a palmo pelos banhistas, num convidativo dia de muito sol e céu sem nuvens. Homens, mulheres e crianças  não se abalaram um segundo. Nem diante do crime que deixou marcas de sangue na areia, nem com o cadáver que ficou exposto na praia  por várias horas, à espera da polícia e do serviço de verificação de óbito. Para os banhistas que continuavam a rotina de quem queria  aproveitar o dia de folga bronzeando-se, bebendo cerveja e se refrescando com picolés, o corpo do infeliz parecia não existir. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras