O Silêncio do Inexorável

Por: Angela Gasparetto

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Tudo vai ficando em silêncio. Silêncio de fechamento de ciclos, de feriados eternos, de férias constantes, de pós-funerais.

No quarto à meia luz, sinto que toda uma etapa está se encerrando e estamos bem no meio da década. O fim chegou antes. Bateu ali na porta do recomeço do ano. Um fim que deveria ter chegado bem antes, aliás, décadas atrás.

Fecho os olhos. De repente, do nada, sinto que estou em uma casa estranha, silenciosa. Dentro deste silêncio aterrador, estou sozinha, deitada, presa na penumbra da sala.

Abro os olhos. Fixo meu olhar e só vejo em frente uma prateleira com várias latas de azeite, as quais trazem um índio com um enorme cocar estampado.

Fixo os olhos no índio. Ele tem porte. Postura forte. Olho, várias latas, vários índios.

Penso muito amargurada que minha mãe não está. Deixou-me aqui sozinha, mas não sei quem é a pessoa e nem de quem é a casa.

O sentimento de abandono é forte. Uma tristeza que corrói meu coração infantil. Uma vontade absurda de gritar. Mas não consigo. Grito mudamente. Solidão aguda. Mexo na cama onde estou, mas não consigo soltar os braços. Choro? O embaraço de chorar em uma casa que não é a minha é superior ao medo.

Acordo. Lembro que este sonho remeteu-me à minha infância. Mas agora na maturidade, tudo vai ficando com um silêncio parecido. Uma quietude semelhante. Um fim de etapas percorridas.

Embora conheça a casa e o tempo. Embora conheça os motivos e as consequências, o escuro da estrada que se aproxima remete ao mesmo medo infantil.

Não há mais índios assustadores, apenas o inexorável latente que define a nossa vida.

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