Aniversário de criança

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Quando Maria Lúcia completou dez anos, desejou, ardentemente, comemorar seu aniversário com uma festinha para suas colegas de escola as quais prezava muito e para algumas amigas vizinhas de sua casa com quem brincava. Nos anos sessenta, as meninas viviam em bandos, em brincadeiras inocentes na rua, nos quintais, nos alpendres. Ela gostaria de convidá-las e servir-lhes um glamuroso bolo retangular, branco, recheado de creme bem doce, todo confeitado nas laterais e arrematado com uma fileira de pitangas de glacê, a volta toda, em baixo e em cima. No centro, uma bonequinha de plástico, antes peladinha, depois coberta com um vestido rodado e longo, também de glacê, mas cor de rosa. Este era apenas um sonho, impossível de se realizar naquele momento. Os bolos que sua mãe fazia eram saborosos, mas horríveis na aparência. Redondos, com um buraco no meio, de crescimento desigual, formando morros na parte de cima, meio queimados na base, [os fornos eram precários] sem recheio ou cobertura. E foi com um destes que ela recebeu as amigas, depois de usar muitos argumentos para convencê-la. A mãe apiedou-se da filha, quando Maria Lúcia mencionou a suposição de que os presentinhos que iria receber compensariam as despesas. E foi bem gostosa a noite, muita gente, muita correria, muito riso e a cama se enchendo de sabonetes, lencinhos, cartões e dinheiro. Sim, várias notas de dez cruzeiros e outras menores. Maria Lúcia expunha, com prazer, aqueles brindes, sentindo-se vitoriosa em suas ideias. Mais tarde, quando seu irmão chegou, pegou-o pela mão para mostrar a cama cheia de presentes e ao procurar o dinheiro, ele não estava mais lá. Ficou, simplesmente, desconcertada. A alegria da festa foi-se dissipando, muitas amiguinhas foram saindo, enquanto outras a consolavam. Em meio a esta desapontadora situação aprendia, a duras penas, para sempre, que o nosso modo de vida não é o mesmo para todos e que, nós, os humanos, não somos todos iguais. Os comportamentos são diferentes, sendo alguns bem estranhos. 

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