O Ser Humano na acepção da palavra

Por: Angela Gasparetto

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Todos os meses eu e meu pai íamos pagar o aluguel da casa do Sr. Avenino. 

Não sei por que tínhamos que pagar no Colégio Nossa Senhora de Lourdes.  Pagávamos sempre para uma das freiras que sempre nos atendia muito solicitamente. Acho que era a irmã do Sr. Avenino.
 
Eu devia ter uns cinco anos e sempre que íamos pagar meu pai chegava muito educadamente e chamava na recepção. Já eu ficava maravilhada com o colégio, aquela construção antiga, grandes salas, cheiro bom, novidades à vista. 
 
Aí lembro que chegava uma freira bem velhinha, sorridente e conversava alguns momentos com meu pai. Ele a pagava e ela, não sei o porquê, sempre tinha que fazer algo lá em cima, pegar um troco, fazer um recibo, não sei, ela sempre tinha que subir ao andar de cima e meu pai esperar alguns minutos. 
 
Nestas horas ela sorria para mim e dizia, “Me acompanhe, suba comigo.” Eu olhava receosa para meu pai, chupeta na boca, ele me encorajava, eu com medo, mas como a boa educação exigia, eu a acompanhava. 
 
No caminho havia uma escada imensa e ela subia na frente tentando engatar diversas conversas comigo, se eu estava gostando da cidade, como era  mesmo o meu nome, se eu gostava de doces, de bonecas, de tudo. Eu nunca respondia, porque a timidez era enorme. 
 
Chegávamos a um quarto, ela pegava o que vinha fazer e tentava sempre arrancar alguma resposta minha. Nestas horas, eu só balançava a cabeça que sim, mas adorando aquele carinho que ela tinha comigo. Oferecia-me doces, roscas e um dia, do nada ela me olhou sorridente e perguntou:- “Você gosta de santinhos”? Pronto, travei. 
 
Fiquei em silêncio porque depois que mudamos para a cidade, nos tornamos espíritas convictos e eu até participava da evangelização no Centro Espírita Vicente de Paula, na Rua Floriano Peixoto, vizinho da minha avó Chica. 
 
Eu travei e olhava para a figura do santinho, para a freira bondosa e para a minha consciência de criança que estava sendo educada em outra religião. 
 
Se eu gostava de santinhos? Eu acho que sim, mas também não tinha certeza.  Eu gostava mesmo era da freira carinhosa com crianças, mas eu nunca tinha rezado para um santinho ou havia tido contato com o mesmo. 
 
O que dizer? A minha educação rígida me mandava ser gentil, mas na minha inocência também não conseguia mentir.  Ficamos paradas, eu e a freira nos olhando mudamente. 
 
Acredito que ela percebeu minha hesitação, mas como era comum nos anos 60 e no mundo latino em geral, a religião católica sempre foi unanimidade e também ela não poderia adivinhar o que se passava na minha cabecinha de criança da roça.  
 
A educação venceu. Eu balancei a cabeça e a chupeta juntos _ era o máximo que conseguia fazer _ e peguei o santinho que ela me entregava. Desci as escadas encantada com as imagens coloridas de Maria e Jesus e mais algumas cores vivas do desenho.  
 
Desci a escadaria segurando o santinho como relíquia, mas também pensando o que minha mãe iria dizer. Em casa eu mostrei a ela que também tinha sido educada na religião católica, olhou pensativamente a figura e depois disse que eram anjos do céu,  que eu guardasse com cuidado.  Em nenhum momento ouvi dela que não devia acreditar nos santinhos. 
 
Minha mãe era uma mulher simples, mal sabia ler e era a pessoa mais sábia que conheci na vida.  Embora nunca tenha ouvido falar em sincretismo religioso,  sem querer desde cedo estávamos mergulhados neste conceito e aprendemos a conviver com a  sua diversidade inerente. 
 
Assim, sem cultura nenhuma, ela sempre nos ensinou a aceitar as diferenças e a respeitar a crença de todos.  Aprendi desde cedo a conviver com todos, em raça, credo ou condição social. 
Para nós, ser politicamente correto não era frase da moda como é hoje, mas ser "o" humano na acepção da palavra, sempre foi.

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