O que precisamos aprender com Amanda

Por: Isabel Fogaça

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A Amanda é notada facilmente nos lugares que chega e não é pela sua altura, afinal, ela deve ter um pouco mais que um metro e meio. Ela não usa salto, mas exibe sandálias de couro que aparentam um conforto invejável. Amanda orgulha-se do cabelo crespo vermelho, e também gosta de seus óculos grandes que são muito mais despojados que qualquer lente de contato. Ela não tem vergonha do corpo, não esconde que gosta de comer, não está preocupada em seguir a capa de revista, e vai para aula de shorts porque está calor. Hoje essa menina que eu conheço há poucas semanas veio me falar de bruxaria, penso que ela demonstra ser muito mais do que a capa que a envolve: é engajada, tem personalidade, fala da vida com doçura e também conhece o peso de ser mulher e estar longe de seguir um padrão imposto socialmente. Apesar disso, ou talvez por isso, Amanda segue feliz e cheia de sonhos. E a partir disso, eu me pergunto: porque julgamos meninas que são como a Amanda?

Noventa por cento das mulheres que conheço são infelizes com o corpo que tem, deve ser por isso que as pessoas compram tantas coisas que não precisam, afinal, o vazio precisa ser preenchido de alguma forma. Além disso, grande parte das meninas com quem convivo usam produtos químicos para alisar o cabelo, ignorando o crespo que identifica suas raízes mais belas. Muitas garotas do meu bairro colocam calça jeans ao invés da saia, shorts ou vestido para ir à aula, afinal, alguns homens podem entender as pernas de fora no calor como um convite para o assédio.
 
Saio para beber água no meio de uma aula, e encontro Amanda no corredor, ela está deitada num banco porque a aula a deixa entediada. Algumas pessoas da sala acham que Amanda é louca, que deveria fechar a boca, as pernas, ou deveria, pelo menos, usar calças. Eu acredito que Amanda se respeita, afinal, muita gente queria assumir o cabelo, o jeans 46, a vontade de largar do marido, e colocar as pernas pra fora numa aula tediosa no sábado à tarde. Mas porque mesmo ainda julgamos Amanda?

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