Solidão

Por: Angela Gasparetto

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 Agora só restava a solidão. O quarto era o mesmo de sempre, cortinas de voil brancas , cama e armários também brancos.

Apenas a cômoda velha destoava do restante dos móveis. Nela mantinha seus livros espíritas, alguma velas, uma imagem de Nossa Senhora juntamente com a foto da cachorrinha que morreu.

A casa ficou vazia, o único sobrinho-neto, a quem cuidou como filho, casou-se e foi embora.

A irmã mais velha morreu há um ano e a outra do meio está demente em um hospital.

Ela pensa: “O que restou, meu Deus”?

Lembra da casa cheia em São Paulo, das irmãs jovens ainda, dos sobrinhos e da mãe viva.

Os Natais com os parentes do interior eram os mais divertidos e esperados.

Agora tudo acabou. A visão foi embora, perna dói, caminha com dificuldades e as lembranças atuais escapam como fumaça.

Atualmente nas festas de Ano Novo, tranca-se no quarto, abre a janela e fica olhando os fogos. Chora, chora e reza. Depois, toma seu calmante e dorme, dorme para esquecer.

Só o passado continua presente. Tão presente que ela se vê de novo, jovem, cabelos louros , penteados “à la Rita Hayworth”, dentes brancos, cintura fina, pernas fortes.

Não tinha medo de nada e era um touro para o trabalho. A noite ainda tinha disposição para dançar e nos finais de semana: praia. Santos era o paraíso naquela época.

Não existia a solidão e o sentimento de fracasso que teimam em bater à porta.

Atualmente deu para enxergar coisas. Vê os pais ainda vivos, a irmã que morreu está de repente em algum lugar da casa, a cachorrinha de estimação passa correndo sob as suas pernas e estas impressões ficaram muito nítidas.

Se comentar com alguém, principalmente a empregada que cuida dela, acha que está louca.

Mas não está!!! Acordou um dia e não se lembrava do que havia acontecido. Por mais que o sobrinho lhe lembrasse, nada, tudo misturado, ou melhor, tudo parecia que estava em uma ordem que não era a ordem correta (diziam).

Um dia escolheu para ser o dia do choro. Disse: Vou chorar agora. E chorou, chorou, chorou!!! Começou da dor menor, até a média, a maior, e foi chorando.

Chorou pela morte do pai, pela morte da amiga, pela da irmã, pela da outra amiga, pela perda do grande amor da sua vida, pela morte da cachorrinha, única amiga que havia sobrado ainda, e foi chorando....

Em dado momento as lágrimas acabaram-se e restou um vazio bom, satisfeito e pronto.

A música do seu radinho, a única companhia que restou, continuava a mesma. Orlando Silva. Solidão. Silêncio.

De repente, um toque de telefone na noite escura. Ela sôfrega atendeu. “Alô! (pensava, quem neste mundo se lembraria desta velha caquética) e do outro lado: _Sou eu, meu amor, o Paulo. Como está? Sabe que estou muito sozinho aqui em SP, vi um filme antigo com a Rita Hayworth e lembrei-me de você!”

Em meio às lágrimas, ela sorri, não estava mais sozinha neste mundo negro de escuridão...

O vento soprava nas suas cortinas de voil e ela agora ouvia risos na casa que parecia repentinamente cheia...

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