O dia em que um avião caiu em Franca

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Sou o Inácio Borges Sobrinho, nascido no dia 17 de janeiro do ano de 1926. Portanto, hoje já conto com os meus 90 anos de idade completos. Nasci na roça, mais especificamente na fazenda “Agudo”, distante 8 km de Garimpo das Canoas, hoje Claraval - MG, onde fui criado.

Estudei um pouco com alguns professores particulares que por lá passaram. Mas, ao completar 13 anos de idade, isto é, no ano de 1939 (ano em que estourou a Segunda Guerra Mundial), minha mãe me encaminhou aqui para Franca a fim de prosseguir os meus estudos. Fui morar com minha tia Dina, na Rua Major Claudiano - nº 154, quase na esquina com a Simão Caleiro. O meu conhecimento escolar era pouco, por isso fui matriculado no 3° ano primário no Grupo Escolar Coronel Francisco Martins, onde cursei também o 4° ano e consegui o meu diploma, já no fim do ano de 1940.

Em 1941 me matriculei na Escola Industrial Dr. Júlio Cardoso com o intuito de fazer o Curso de Torneiro Mecânico, que não cheguei a finalizar porque atingi os meus 15 anos de idade sempre com muita dificuldade financeira, motivo este que levou a pensar num trabalho que garantisse o meu sustento, porque minha formatura ainda demoraria quatro anos. Voltei para roça (fazenda Agudo) e com a cara e a coragem enfrentei o plantio de cereais, pois os meus pais também dispunham de pequenos recursos.

Até aí tudo bem!

Porém, até o presente momento ainda não relatei nada a respeito das coisas que me perturbavam a cabeça fazendo-me pensar e sonhar com um dia quando poderia me realizar, mas, de vez em quando, o vento levava tudo para os ares.

Na realidade eu era apaixonado por avião e música.

Ao lado do atual Correio havia uma loja com grande e variado estoque, de propriedade do Pimentinha. Ali trabalhava um balconista chamado Guido Betarello que na época deveria ter uns 20 anos de idade. Em uma grande vitrine desta loja ficavam expostos os instrumentos musicais. Sempre que eu passava por ali não resistia, entrava na loja para vê-los. Em uma destas minhas visitas veio o Guido, com toda a delicadeza que lhe era peculiar, e me perguntou: 

- De qual instrumento você gostou? 
 
E eu meio tímido respondi: 
 
- Do bandolim.
 
Ele disse:
 
- Então vou tirá-lo e você o leva.
 
Respondi:
 
- Não posso comprá-lo agora porque não tenho o dinheiro!
 
Essas minhas visitas à loja se repetiam sempre, chegando ao ponto dele me apelidar de “MENINO DO BANDOLIM”. Esse apelido durou para sempre, até o seu falecimento que se deu em março do presente ano. 
 
Mas felizmente, para finalizar este capítulo de minha vida, chegou o dia em que acabei comprando esse bendito bandolim.
 
Foi a partir daí que comecei a intercalar trabalho e música. Duas vezes por mês vinha à Franca para receber aulas musicais com o famoso professor Godofredo de Barros Júnior (o Godinho). Mais tarde toquei na Banda de Claraval, cujo maestro foi o Padre Silvio Capobianco, onde e quando consegui dominar três instrumentos: saxofone, clarineta e pistom, sendo que o meu predileto sempre foi o saxofone.
 
Mas sempre sentia que outra coisa mais importante me arrastava com bastante força. O que seria? Era o tal AVIÃO.
 
Como sempre morando na roça, sentia que o avião circulava em minhas veias. Quando ouvia um barulho de avião, saia correndo para vê-lo e aí o acompanhava com a vista até desaparecer. Isto mesmo que estivesse trabalhando. E aquela cena de poucos minutos me deixava pensando e revendo-a o resto do dia.
 
E assim o tempo foi passando.  Não me lembro se foi mais de um ano. Como nossa casa nos fins de semana era frequentada por muita gente, e certo dia passou um avião novamente, saímos fora da casa para vê-lo e, depois que sumiu de nossas vistas, aí surgiu o meu comentário:
 
 - Um dia vou até Franca pegar um avião e venho voar aqui. 
 
Recebi, por parte de todos,  uma enorme gozação, não faltando quem não desse uma gargalhada. Senti-me um pouco constrangido, mas retruquei:
 
- Vocês hão de ver!
 
O tempo foi passando e eu sentia a necessidade de cumprir a minha palavra. 
 
Num certo final de semana, peguei o meu cavalo e disse para a minha mãe: 
 
 - Vou dar um passeio em Franca.
 
 Ela me respondeu:
 
- Vai com Deus, meu filho!
 
Não toquei no assunto sobre o avião, mas na minha cabeça uma coisa me dizia: “ - É hoje”!
 
Coloquei o cavalinho na estrada e, depois de quatro horas de viagem, estava eu, o moleque, chegando a Franca. Aqui soltei o animal num pastinho onde eram instalados os curtumes, ali na Marginal Alonso, onde pagava Rs$ 1.000  reis por diária. Fui me hospedar na casa da minha tia Dina, onde já havia morado anteriormente. Após cumprimentá-la eu disse:
 
- Tia ...  vou dar umas voltas pela cidade. 
 
E assim saí para o centro a fim de descobrir alguém que conhecesse um aviador... etc. Após poucas perguntas uma pessoa me disse: 
 
- Na pensão Santa Rita mora um. 
 
Perguntei:
 
- Onde fica essa pensão? 
 
Como estava na praça N. S. da Conceição a pessoa me mostrou:
 
 - Aí nessa rua perto da cadeia, um pouco antes. (Era a Rua Major Claudiano). 
 
Mais que depressa lá fui eu. Chegando, bati umas palminhas e apareceu um atendente. 
 
Perguntei:
 
_ Aqui mora um aviador? 
 
Ele respondeu:
 
- Mora. Quer falar com ele?
 
 Respondi:
 
- Quero. 
 
Ele entrou novamente e em seguida me apareceu o tal; um homem moreno, de bigode e baba serrada com gesto aparente de bravo e me perguntou:
 
 - Quer falar comigo? 
 
Eu disse:
 
- O Senhor é o aviador? 
 
Respondeu:
 
- Sim, o que deseja?  
 
Eu, com toda aquela minha timidez lá da roça disse:
 
- Eu moro em um sítio perto de Garimpo das Canoas e se possível gostaria de fazer um voo por lá.
 
E ele me perguntou:
 
 - Quando? 
 
Eu respondi: 
 
- Na hora que puder!
 
Ele disse: 
 
- Então você vai ao campo amanhã, ali pelas duas horas da tarde. Estarei por lá, combinado?
 
Respondi feliz: 
 
- Sim, combinado. Até amanhã.
 
Saí dali com uma tamanha alegria, como se tivesse ganhado na loteria, e pensando, tudo certo, meio caminho andado!
 
Logo imaginei que teria que dar ao pessoal do sítio um sinal de vitória e mostrar que era eu mesmo que estava dentro daquele avião. 
 
Comecei a pensar: como faço? 
 
Então me surgiu uma ideia: comprar um pão grande e jogar para que eles o pegassem.
 
Ah, não deu outra. Fui até a Padaria Minerva, na Rua Dr. Júlio Cardoso, e comprei um pão dos maiores, por Rs$ 200 réis. Pedi que me fizessem um embrulho resistente e saí. Mas não fiquei satisfeito com o embrulho, achando que jogado de cima poderia se espatifar. Então, enrolei outros papeis e deu muito certo. Daí coloquei dentro um bilhete cujos dizeres não me lembro.
 
Fiquei contando as horas. Que noite comprida! Parecia que o relógio tinha parado. Enfim, no dia seguinte embarquei, a pé, rumo ao campo de aviação, chegando lá mais ou menos às 13h30 min. Não tinha aparecido ninguém ainda. Então perguntei ao Sr. Antônio, (guarda campo) a que horas chegaria o aviador.
 
Ele me perguntou:
 
- É o Borginho? 
 
Respondi: 
                 
- É o que toma conta dos aviões. 
               
Ele falou:
                 
 - Daqui a pouco começa a chegar o pessoal.  Tem muitos alunos.  Pode ficar por aí à vontade.
                 
Eu respondi: 
                 
- Obrigado.
                 
Pouco depois começou a chegar gente, inclusive o tal de Borginho. Tiraram alguns aviões do hangar e iniciaram os voos. O meu coração batia forte a cada pouso que faziam. Num dado momento, o Borginho chegou ao meu lado com aquela cara de mau e me perguntou:
- Você é que esteve ontem lá na pensão? 
 
Respondi que sim. Ele me disse que daqui a pouco eu faria o meu voo. 
 
Não demorou muito ele olhou para um piloto e disse:
 
- Ambrósio, leva-o num sítio perto de Garimpo das Canoas. Mas, cuidado, pois lá tem serra! 
O meu coração disparou e o pão sempre debaixo do braço. Entramos no Teco-Teco. Deu partida e seguimos para cabeceira da pista e em seguida a decolagem. Para mim, é claro, tudo era novidade. Logo avistei a Igreja da Capelinha à minha direita e o piloto me perguntou:
 
- Você sabe onde é? 
 
Respondi:
 
 - Sei, fica lá naquelas serras. 
 
Quando nos fomos aproximando, notei que a aceleração do motor diminuía e começamos a abaixar. E aí mostrei: é naquela casa amarela. 
 
Logo ele já deu um rasante e passa para lá e passa para cá, eu falei:
 
- Eu quero jogar esse embrulho.
 
Ele respondeu:
 
- Eu vou afastar e volto no rumo. Quando chegar perto eu abro a janela e você aguarda eu falar: joga. 
 
E assim foi. O embrulho caiu ao lado do curral. Em baixo estava cheio de gente e ainda deu para que eu visse alguém pegar o pão. E o piloto me perguntou:
 
- Já podemos ir embora?
 
Respondi:
 
- Podemos sim. 
 
Voltei apreciando o voo e pousamos.  Esse voo ficou na história. Quando foi no final da semana seguinte, lotou de gente em minha casa. E cada um deles queria saber com detalhes a respeito do voo, e me dirigiam as mais variadas perguntas. Não foi fácil dar tanta explicação!
                 
Continuei sempre pensando em fazer outros voos até que tomei a decisão de fazer o curso de piloto.
                 
 Vim à Franca e fiz a minha inscrição como sócio do Aero Club, passei pelos exames médicos que eram exigidos, recebi um manualzinho para estudar, pois teria que dominar cinco matérias teóricas que eram exigidas. Comecei logo a receber instrução de voo. Naquela época já não era mais o Borginho o instrutor do Club, e sim um senhor de Ribeirão Preto por nome de Walter de Luca. Voava somente duas ou três vezes por mês, pelas dificuldades encontradas por eu morar no sítio distante e ter que vir a cavalo, conforme já disse anteriormente.
                 
Naquela época o Sr. Jorge Kairala, proprietário de uma loja de artigos dentários situada na Praça Barão da Franca, que tinha como nome fantasia: “A LÂMINA DE OURO”, era o presidente do Aero Club. Como o conhecíamos por ser ele também natural de Garimpo das Canoas, meu conterrâneo, passei por lá para um ligeiro “papinho” e para dizer-lhe que ia para o campo fazer voo de treinamento.  
                   
Tive uma facilidade enorme na minha adaptação com o avião, pois a cada voo que fazia recebia elogios do instrutor pelo meu desempenho em pilotar a máquina, fazendo todas as manobras com perfeição.
                 
 E agora!... Era imensa a minha alegria e satisfação com tudo que estava vivendo na aviação. De repente fui tomado por uma enorme Tristeza, pois tinha chegado ao final de toda a minha carreira como piloto.  Era o dia 28 de setembro, do ano de 1946. Quando eu e o instrutor fazíamos o voo de treinamento, nas imediações de onde hoje é o bairro City Petrópolis , ao retornar para o pousoveio ao nosso encontro com um gesto estranho o nosso guarda campo, Sr. Antônio, que nos disse:
 
- Estava preocupadíssimo com vocês. O Kairala telefonou aqui dizendo que caiu um avião nos fundos da praça do mercadão e supúnhamos que seriam vocês. 
Nesse momento o instrutor Walter nos disse: 
 
- Meu Deus, é o Wilson. Ele me disse que viria aqui hoje (amigo dele de Ribeirão Preto). 
Imediatamente pegamos uma perua Rural, de sua propriedade, e nos dirigimos às pressas para a cidade e ele vinha comentando: Meu Deus... Meu Deus... é o Wilson! 
 
Naquele tempo, a rua Voluntários da Franca possuía mão dupla. Viemos por ela e, ao chegarmos à esquina da Rua Couto Magalhães, viramos à esquerda e ao aproximarmos da esquina da rua General Telles deparamo-nos com um aglomerado de pessoas e a triste cena do acidente. Ao lado de uma grande bacia d’água de ferro fundido, onde os carroceiros davam água aos seus animais, o avião em voo rasante, vindo do lado da Estação, em cima da Rua General Telles, chocou-se contra um poste de linhas telefônicas dobrando-o até quase encostar-se ao solo e caiu logo acima da referida bacia, incendiando-se de imediato e queimando toda a
tela de revestimento rapidamente, por ser de material inflamável. Sobrou somente a ferragem.
 
Como a bacia estava cheia d’água as primeiras pessoas que chegavam jogavam água para ver se conseguiam conter o fogo. 
 
Estavam duas pessoas no avião: o dono – Sr. Wilson e o seu irmão João. Populares disseram que eles ainda gritavam: 
 
- Não joguem água, gente. Tirem-nos daqui. 
 
Ao nos aproximarmos, ainda me lembro das palavras do meu instrutor Walter:
 
- Ô gente, como vocês estão deixando eles se queimarem? 
 
E me disse: 
 
- Inácio, levanta a cauda.
 
Eu a levantei e o meu instrutor Walter os retirou com facilidade, mas já sem vida. Como ainda tinha um pequeno fogo no tanque a pressão, ao levantá-lo, ocasionou uma pequena explosão. Nesse momento, o povão ameaçou correr e um senhor de cor caiu para o lado da Rua General Telles, ficando com o pé em cima da guia e a perna em falso. Neste momento, alguém na correria pisou em cima e quebrou a perna dele. 
 
Ainda na nossa chegada havia um senhor, funcionário da Agência Ford, tentando tirar os acidentados com um gancho, mas não conseguia. Ainda na Rua General Telles parou um caminhão sem as laterais, somente o assoalho. O Walter, meu instrutor, pediu ao proprietário que os levasse até ao Necrotério do Cemitério da Saudade, onde ficaram até que a família de Ribeirão Preto determinasse o que fazer. 
 
O Walter inconsolado dizia:
 
- Ô meu Deus! Como vou fazer agora para dar essa notícia à família?
               
 Valia aqui ressaltar um detalhe: esse avião o Sr. Wilson havia ganhado em uma rifa, há apenas dois meses. E seu irmão João, que também faleceu junto, não gostava de avião e só tinha vindo para fazer companhia ao Wilson.
                 
Outro detalhe que eu gostaria de aqui ressaltar é sobre o motivo do voo rasante: acontece que o Wilson tinha uma namorada exatamente em frente ao local onde aconteceu o acidente.  Ele errou o cálculo e a altura e se arrebentou no poste. A namorada era filha de um forte diamantário chamado Cézar Pereira que, segundo diziam, era natural da Bahia. 
                 
No necrotério estávamos eu, o instrutor Walter e os dois mortos. E o Walter estava ali a planejar meios de como entrar em contato com a família, quando me despedi dele. Nunca mais na minha vida voltamos a nos encontrar.
                 
Embora tenha presenciado toda aquela cena triste, não vi motivos para desistir do meu ideal de ser piloto, pois comprovou-se que, infelizmente, havia acontecido uma falha humana.
                 
Mas... a consequência veio depois... A comunicação era extremamente difícil naquela época, principalmente para quem morava na roça com eu. Como já disse anteriormente, a viagem durava 4h a cavalo ou, então, de jardineira (ônibus) via Garimpo das Canoas (Claraval - MG), que fazia somente um horário diário, partindo daqui às 14h e depois mais 1h a pé de Garimpo das Canoas até o sítio. E isso só poderia ser feito no dia seguinte porque já era tarde. 
                 
 Sobre o acidente eu estava pensando em não dizer nada quando chegasse em casa, e dar um tempo para ver como ficariam as coisas.  Enganei-me totalmente. Deu tudo errado.
                   
Como costumavam dizer, apareceu lá em casa um “espírito de porco”. Não sei como ele conseguiu ter acesso à notícia e contou tudo para a minha mãe. 
                   
Pronto... E daí? 
                   
Ela entrou em pânico e verdadeiro desespero, pois  não tinha como ser esclarecido o fato até que eu chegasse em casa. Na cabeça dela seria eu o acidentado e não poderia ser outro. Aguardava a minha chegada, que por sorte não devia demorar muito. Eu tinha o hábito de chegar entre 4h30 min. e 5h horas da tarde. Ela chorava... chorava... reclamava sem parar!
                   
Enfim, fui chegando devagar, e numa distância de aproximadamente 50 metros já ouvia o seu choro desesperado. Ao entrar em casa, ela me abraçou, agarrou-me com toda força e, ainda chorando, me dizia:
 
- Meu filho, te peço pelo amor de Deus, larga de mexer com esse tal de avião, porque se você continuar vai ser o fim da minha vida!
                   
 Embora eu já tivesse na época 20 anos de idade, é sabido que naqueles tempos todos os filhos tinham por costume obedecer aos pais. Então eu disse a ela:
 
- Mamãe, pode ficar tranquila. Eu prefiro viver com a senhora e, assim sendo, vou abandonar o meu curso de piloto.  
 
Sem dar a menor demonstração fiquei triste e aborrecido por ver o meu castelo ser IMPLODIDO repentinamente! 
 
Era o final de uma história... de sonhos interrompidos e castelos arquitetados e agora desmoronados. 
                                                                          
                                                                                                                             
 
Complementando: 
- Até há pouco tempo, isto é, março do presente ano (2016), somente duas pessoas em Franca poderiam falar ou se lembrar desse acidente relatando-o. Mais precisamente posso dizer que seríamos eu e o já mencionado Dr. Guido Betarello que, na época, trabalhava bem próximo ao local e teve a oportunidade de presenciá-lo, pois ele era 6 (seis) anos mais velho que eu. 
Esse fato completará 70 anos no dia 28/09/2016.

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