A luta está em todos os lugares

Por: Isabel Fogaça

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Cheguei para dar monitoria de redação no cursinho popular, selecionei uma cadeira, e tirei um texto de gestão pública da bolsa, eu tinha o objetivo de ler enquanto algum aluno não chegasse. Enquanto pregava meus olhos no texto, minha mente viajava para o cenário em que vivo há seis anos, ou seja, a universidade pública. Penso que fora dela estou cercada por pessoas que não compactuam com seus ideais, e enquanto os movimentos sociais resistem nas ruas, a terceira maior rede televisiva do mundo faz um discurso tentando abafar a causa do povo. Meus devaneios cessaram quando percebi um rosto tímido aparecer na porta, dizendo: “Oi, aqui que está sendo a monitoria de redação?”.

Olho para o relógio e percebo que meu horário de monitoria havia esgotado, afinal, eu estava ali há mais de três horas, tão focada que não vi o tempo passar, mas mesmo assim, respondo: “Claro, pode entrar. Quais são suas dúvidas?” Ele rapidamente tira algumas folhas amassadas da bolsa e diz sobre seu problema com a pontuação. E antes mesmo que eu começasse a falar, ele pergunta: “Você estudou na UNESP?” Respondo com a cabeça de modo afirmativo; então, ele começa a fazer suas indagações.
 
M. tem dezessete anos, está no terceiro colegial de uma escola pública de Franca, mora em um bairro periférico, é negro, vem de família evangélica, usa o transporte público, e seu sonho é cursar direito ou serviço social na federal do Rio Grande do Sul. Pergunto a ele, então, o porquê de sua escolha, e ele responde que vive na pele a causa de todas as características que citei acima. M. é um jovem sincero e cheio de sonhos, penso que eu não tinha a mesma maturidade que ele quando eu tinha dezessete anos. Ele me possibilitou uma aula sobre a repercussão do machismo, preconceito racial e as falhas em defender a meritocracia, e em momento nenhum eu me posicionei, apenas ouvi.
 
Após uma hora de conversa digo a ele que preciso ir, e que foi um prazer ter aprendido tanto naquela tarde. Ele, de modo tímido, guarda as folhas amassadas dentro da bolsa. Saio do cursinho popular com o sentimento de barriga cheia e mente tranquila, afinal, como citei, às vezes tenho a sensação de estar vivendo uma bolha impenetrável dentro da universidade e hoje eu senti que não, a luta está em todos os lugares.

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