Quem são os loucos?

Por: Isabel Fogaça

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Na obra A História da Loucura na Idade Clássica (1961) trabalhada por Foucault (1926-1984) são  oferecidos subsídios para uma compreensão da loucura durante o período da Idade Média. O autor traça condições históricas e subjetividades sociológicas de uma doença comum no século XII: a lepra. Afinal, o leproso, deste período, não tinha opções além dos hospitais criados com a finalidade de “reclusão” física e social, impedindo que estes vivessem nas condições das demais pessoas daquele ambiente europeu. Ganharam o rótulo de doentes e, sobretudo, “loucos”, em consequência disso. Pensando nisso, na última semana, o Brasil assistiu ao caso onde uma menina de dezesseis anos foi estuprada por trinta e três homens. Seriam estes os loucos do Brasil contemporâneo? Se sim, porque ainda há quem vitimize os culpados e vulgarize a vitima?

Obviamente são duas realidades distintas, afinal, parece um absurdo completo comparar o Brasil contemporâneo com o cenário europeu do século XII. Porém, a perpetuação do conceito “louco” continua século após século. Foucault demonstra que os meios destinados a este público eram os hospitais retendo no mesmo meio social os “ridículos”, os “vagabundos", e os presidiários, com o intuito de reclusão para “salvação” imposta pelo divino. Além disso, as “naus dos loucos” era uma opção de despachar aquele que era diferente para “seu devido local”. Foucault trabalha e une a questão do louco velejando sob a inconstância e a incerteza do mar. Nesta época, mediante o imaginário da sociedade europeia diante das grandes navegações, fica claro que o real objetivo deste transporte era que o louco não retornasse, pois: “A navegação entrega o homem à incerteza da sorte.”.
 
Contudo, o louco era aquele que apresentava o perigo por ser diferente, mas será que dentro do caso de estupro na última semana no Brasil os agressores são realmente loucos ou apenas são reflexo de uma sociedade patriarcal? Se sim, isso não seria o caso mais evidente de loucura contemporânea? Grande parte da população responde às agressões caracterizando os estupradores como loucos e monstros. Porém, isso apenas aumenta o preconceito com as pessoas que realmente vivem consequências de problemas psíquicos e sofrem durante séculos com a descriminação e a exclusão.
 
Os estupradores não são loucos, eles são o reflexo da sociedade que faz o discurso em prol da cultura machista. A partir disso, o estuprador pode ser qualquer homem que olha nos seus olhos nas ruas, e os trinta e três que cometeram o estupro são sujeitos que trabalham, possuem crenças, falam em público, dirigem, frequentam mercados, assistem televisão, e, sobretudo, não são pessoas diagnosticadas com deficiência.

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