Falhamos

Por: Isabel Fogaça

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Tentamos reverter o genocídio dos povos indígenas, falhamos. Tentamos superar a evangelização e o massacre cultural do início do século XVI, falhamos. Tentamos combater a corrupção, prendendo políticos com contas milionárias na Suíça, falhamos. Meu pai tem um toca fitas e um vídeo cassete, já tentaram presenteá-lo com um aparelho de som e um DVD moderno, ele negou. E esta é minha maneira de interpretar as construções deste país, afinal, como enfrentar a complexidade e os efeitos da modernização com uma organização arcaica?

Sobre estas questões, há quem se permita aprofundar na filosofia, confiando em Hobbes ou em Rousseau. O fato é que se o homem é o lobo do homem, ou se ele nasce bom e a sociedade é o que o corrompe é uma discussão que atravessa séculos. Mas por agora, por mais clichê que a frase soe: o que devemos fazer é parar de chorar pelas falhas e trabalhar no acerto. Ao pensar nisso, remeto uma passagem do poeta Charles Bukowski onde ele dizia sabiamente que deveríamos nos afastar do pensamento da maioria, afinal, o que parece um completo absurdo hoje sobre o que faziam os “loucos”, na Idade Média era comprado por uma grande maioria da época como cita Foucault.
 
Quando criança, eu gostava de assistir aquele programa do Silvio Santos com meu avô, um que ele fazia uma questão e algumas pessoas escolhiam a porta com a resposta certa, muitas daquelas pessoas não conheciam nada sobre os assuntos tratados, mas eram levadas pela grande maioria. Nada garantia que elas errariam ou acertariam, estavam à mercê da própria sorte.
 
O modo de lidar com as construções sociais através da sorte, ou escolher padrões através da maioria é um ato estúpido e corriqueiramente cometido, é a complexidade da liberdade tratada na obra de Sartre. Mas então, como interpretar a complexidade de passagens bíblicas se não somos capazes de respeitar as mínimas diferenças destes seres da Terra? Definitivamente, não estamos preparados, a partir disso, continuaremos falhando.
 
Tentamos até vencer o Oscar de melhor animação. Tentamos salvar o Museu da Língua Portuguesa; ganhar a Copa de 2014 e convencer nossos avós que manga com leite não mata. E outra, de novo, e mais uma vez, falhamos.

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