O que será?

Por: Eny Miranda

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Tenho olhado o céu noturno com muita atenção. As estrelas parecem estar diminuindo de número, dia a dia. É tanta escuridão aberta, tanto oco, tanto vazio!... Fora os problemas oculares devidos ao tempo - que não perdoa olhos de ninguém -, algo deve estar acontecendo. O que será?

Há estudos sobre poluição luminosa nas cidades impedindo a visão de estrelas e, por conseguinte, o reconhecimento de nossa própria casa: a Via Láctea.

Gosto de admirar os astros, assistir à sua lenta caminhada, imaginar que alguém, um alienígena ou mesmo um humano querido já distante, de lá nos observa, me observa (e até me protege, quem sabe?), em olhar recíproco. Gosto de pensar no muito mistério pulverizado neste Universo, a que nem nos sonhos mais mirabolantes ousamos ter acesso.

E agora as estrelas sumindo, assim, num vão buscar de olhos ou apontar de dedo...

Será o excesso de luz? Serei eu?

Em noites sem lua e sem nuvens, papai costumava explorar o céu conosco. Levava-nos a apontar as constelações mais conhecidas e testava nossos aprendizados sobre elas. Fazia questão de que encontrássemos aquela quinta estrelinha no Cruzeiro do Sul, a “Intrometida” - nome que repetia sempre com um sorriso nos lábios -, já que a Estrela de Magalhães, grande e brilhante, era muito fácil achar. As Três Marias, cinturão de Órion, nossos encantados olhos meninos as reconheciam imediatamente, naquele mundo que piscava mágicos mistérios. E a curiosidade crescia, e se abria ao espaço: queríamos saber tudo sobre o céu e seus incontáveis segredos.

Então papai e mamãe nos falavam de viagens por mar, em tempos muito antigos, quando os astros guiavam navegantes. E explicavam a importância de noites de céu limpo no destino dos homens que exploravam oceanos, e dos que cruzavam as areias de infindáveis desertos. E nosso imaginário se perdia em grandes distâncias, o coração viajava, batendo forte, sentindo aquele medo bom, bem vindo, aquela inefável excitação da alma que explora o desconhecido.

Agora, leio sobre poluição luminosa impedindo olhos de reconhecerem a Via Láctea, porque não conseguem mais ver estrelas.

Na verdade, quase não se veem crianças a olhar o céu, a apontar o dedo para uma Intrometida, naquele excitado temor de que uma verruga nele surja, subitamente, ou naquela ânsia de descobrimentos. Andam com os olhos muito ocupados com as estrelas das telas, e vivem com os dedos presos a teclas. Seus pais estão igualmente atados a chãos de GPS e a nuvens de www.

De meu quintal de ardósia, mal consigo encontrar o Cruzeiro do Sul ou as Três Marias (o que dizer então da Intrometida?) na imensidão das noites de agora.

Será o excesso de luz? Ou a falta de brilho nos olhos?

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