A pequena camarada Zin-Mi

Por: Sônia Machiavelli

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É de cortar o coração olhar uma menina privada de infância.  Incomoda perceber gente treinada para não se expressar. Assusta não reconhecer identidades numa legião de seres simétricos. Por aí se entende  que não haja literatura em tal lugar. Escritores são capazes de sobreviver à falta de liberdade. Mas não nascem onde o sonho é abortado todos os dias.

Esses pensamentos e emoções me afloraram depois de assistir ao documentário Sob o Sol, do russo Vitaly Mansky, exibido pela  Globo News na semana passada e disponível na Internet. O cineasta já o havia apresentado na 21ª edição do festival É Tudo Verdade, que aconteceu em abril último em São Paulo e cujo propósito tem sido chamar a atenção para fatos da história contemporânea. 
 
O filme nos deixa entrever o país mais fechado do mundo, a Coreia do Norte. Ela emergiu no pós Guerra, depois da saída do Japão do território  que o paralelo 38 cindiu ao meio. Diante do ostensivo isolamento, é de se imaginar como foi custoso o trabalho de  Mansk. Ele explica que o documentário só se tornou possível mediante acordo pelo qual coube às autoridades norte-coreanas deliberarem sobre roteiro, pessoas, locações e comportamentos. Apesar dessa imposição que estrangula a jugular de qualquer processo criativo, o talento e a sensibilidade do artista operaram  um milagre. Pela maneira como editou as imagens, o filme conseguiu mostrar como  tiranos  conseguem desumanizar seres castrando sua voz desde o berço.
 
A lavagem cerebral começa cedo, pois as crianças passam a morar na escola aos três anos e só voltam para casa nos fins de semana. Na instituição modelar da capital Pyongyang onde estuda Zi-Min, a protagonista do filme, a estrutura física parece boa. Não se sabe se o modelo é o mesmo para todo o país, já  que no interior a fome é a grande tragédia. O governo entrega 200 gramas de arroz diariamente para cada família necessitada e a ONU, junto a uma entidade norueguesa, distribui alimentos, atenuando um pouco a penúria. Mas na propaganda, alma do negócio comunista, a menina aparece sentada ao lado dos pais, saboreando um “kimchi”, prato típico, e sendo estimulada a comer mais. Na verdade, logo se percebe que aquilo é um número repetido várias vezes até que se consiga o tom desejado pelos policiais que vigiam Mansky. A intenção do Estado é mostrar que a mesa é farta, a criança é forte, o clima é familiar. A do diretor, comunicar ao espectador que a regra do documentário foi subvertida e o que deveria ser realidade é apenas encenação. 
 
Sob o Sol  acompanha a vida desta menina de sete anos que se prepara para integrar a União das Crianças, numa gigantesca e disciplinada cerimônia. Na escola o diretor filma também a professora . Ela falseia dados  sobre a fundação do país, e incita o ódio dos alunos em relação aos “japoneses e fazendeiros patifes que quiseram tomar  para si a Coreia, defendida bravamente pelo Sol Eterno, o General, o Libertador, o Protetor, o Presidente Eterno, a Estrela Brilhante, o Grande Líder Kim II sung.” 
 
Morto em 1994,  o Grande Líder  continua vivíssimo nos retratos que toda casa deve obrigatoriamente exibir na parede da sala; em milhares de estátuas  em ruas e praças; nos imensos painéis à entrada das cidades; nas extraordinárias paradas militares; nas coreografias magníficas; nos pôsteres alusivos ao nome que não pode ser usado por nenhum outro. O filho Kim Jong_il, que o sucedeu, continuou desenvolvendo de forma maciça o culto à personalidade enquanto emulava  o modelo de Lenin, Stalin, Ho Chi Mim e Mao Tse Tung. O neto King Jong-un  chegou ao poder em 2011, aos 28 anos,  e apurou o totalitarismo.  Se os dois primeiros Kim adoravam ser adorados, o terceiro acresce à obsessão traços de psicopatia.
 
Pelos olhos de Zin-Mi somos convidados a mirar longos corredores por onde circulam pessoas silenciosas; amplas praças sem verde e sem lojas nas quais  grupos fazem ginástica sob comando de voz anônima; filas duplas de adultos e crianças que reverenciam  enorme painel no qual se destaca o Protetor; raros veículos em circulação, pois só funcionários públicos têm autorização para dirigir.
 
É nítida a obsessão pelo controle. Quando Zin-Mi derrama  algumas lágrimas  depois de  frustrado plié, a professora  de ballet quase lhe arranca o nariz com lenço de papel. Mais tarde, convidada a falar de sua gratidão por fazer parte da União das Crianças, volta a chorar. Voz masculina diz à professora que acalme a criança, pois “ela precisa  aparecer tranquila no filme”. Zin-Mi é então instada a pensar em algo bom para driblar a visível angústia. Em resposta, move sua boca numa pergunta cheia de perplexidade : “o quê?” Segundos depois diz que vai declamar um poema. E recita  com entusiasmo versos escritos pelo Presidente Eterno em louvor a si mesmo. 
 
Assim termina o documentário Sob o Sol, com a luz  fria do inverno  rigoroso conferindo  ainda maior tristeza à paisagem humana. A camarada  Zin-Mi está sendo treinada para integrar o grande exército de adoradores da Estrela Brilhante. Como todas as crianças do país, aprende que é dever de honra odiar japoneses, americanos e outros estrangeiros; que não há verdade que não seja a do Libertador; que sua profissão será uma deliberação do Estado; que não se pode ouvir outro tipo de música que não seja o autorizado; que em todo 8 de julho ninguém pode sorrir ou falar alto porque neste dia morreu o Sol Eterno, a quem todos devem gratidão enquanto respirarem. Etc. As regras sobem à centena e aumentam todos os dias. 
 
É sob o influxo deste Sol que  Zin-Mi declara na abertura do documentário:  “Meu pai diz que a Coreia do Norte é o mais belo país do Oriente”. Neste momento ela tem ao seu lado única flor vermelha que no final se transformará em milhares de outras. Todas  idênticas. 

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