O apanhador no campo de centeio

Por: Sônia Machiavelli

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De vez em quando aparece no Facebook uma solicitação de amigos que pedem, uns aos outros, a listagem de seus 10 livros preferidos. As instruções são simples: a pessoa não deve pensar demais no assunto, apenas escrever de bate-pronto os 10 títulos que, lidos ao longo da vida, tenham marcado  sua experiência como leitor. Em setembro passado, o grupo responsável pela análise de dados do Facebook decidiu avaliar o que havia de comum entre as listas e criou uma com os 20 livros mais amados por usuários do Facebook. Foram examinados dados de países que exibiram mais de 20 mil respostas à enquete. A lista original, com os livros mais marcantes no mundo ocidental, ficou assim por ordem decrescente de votação:

A série Harry Potter – J.K.Rowling;  O Sol é para Todos, Harper Lee; O Senhor do Anéis, J.R.R. Tolkien;  O Hobbit, J.R.R. Tolkien;  Orgulho e Preconceito, Jane Austen;  A Bíblia; O Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams;  A trilogia Jogos Vorazes, Suzanne Collins;  O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger; O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald;  1984, George Orwell;  Mulherzinhas, Louisa May Alcott; Jane Eyre, Charlotte Brontë;
 A dança da morte, Stephen King; E o vento levou, Margaret Mitchell;  A Wrinkle in Time, Madeleine L'Engle;  O conto da aia, Margaret Atwood;  O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, C.S. Lewis;  O Alquimista, Paulo Coelho e  Anne de Green Gables, L.M. Montgomery.
 
A colocação em nono lugar de O Apanhador no Campo de Centeio, publicado em 1951, me surpreendeu, considerando a faixa etária dos votantes, ao redor dos 28 anos. É um dos romances mais perturbadores que já li, e isso aconteceu há seis anos, quando Salinger morreu aos 90 anos e seu nome veio à baila. Recluso, verdadeiro eremita, ele nunca dava entrevistas, proibiu qualquer biografia, vivia numa região rural dos EUA e parou de publicar nos anos 60. Além do livro que hoje comentamos, é autor de um conto que se tornou famoso ( Um dia perfeito para o peixe –banana) e duas novelas. Dizia que o grande barato era escrever para si mesmo. Difícil entender uma esquisitice dessas. Mas que ele foi um escritor de enormes recursos e criou um tipo (o Holden Caulfield do livro em epígrafe) que parece feito de carne e ossos, isso é incontestável. Como poderia dizer o protagonista a respeito de seu criador, “um ficcionista cem por cento, verdade.”
 
A negação deste adolescente, Holden Caulfield, quanto a integrar o mundo adulto na sociedade do pós-guerra, constrói a narrativa, de leitura só aparentemente fácil por ser  linear. As camadas de sentido que a estruturam, e custaram ao escritor  dez anos de trabalho, pedem mais que atenção; elas demandam sensibilidade e compaixão em relação ao sofrimento adolescente derivado da recusa em fazer o luto da infância para ingressar na sociedade adulta. Não que Holden Caulfield seja um Peter Pan  que permanece na infância indefinidamente. O protagonista de O apanhador no campo de centeio é mais um Rousseau contemporâneo que, já não sendo criança, acredita no mundo perfeito, imaculado, extraordinário e encantador da infância. Em razão disso, aos 17 anos, desveladas as crueldades dos adultos que conhece na família e na escola, pretende defender até onde for possível a inocência da irmã Phoebe, de 10 anos, e a memória do irmão Ellie, morto ainda criança. São ambos representantes desse mundo de pureza e sinceridade ao qual o herói lastima não mais pertencer. 
 
Se fosse preciso sintetizar ao mínimo o relato de O apanhador no campo de centeio, diríamos que Caufield  é um adolescente que foge do colégio Pencey, onde foi reprovado em todas as matérias, menos na sua língua, o inglês.  Com receio de encarar os pais, pois este é o terceiro colégio do qual é expulso, o garoto de classe média alta vagueia  por Nova York durante um fim de semana. Estamos em dezembro,  nas proximidades do Natal. Faz frio, chove, venta, o cenário é inóspito e traduz com perfeição seu  estado de espírito acinzentado. Suas conversas quase sempre noturnas e soturnas com antigos colegas, dois ex-professores e gente desconhecida como porteiros de hotel e prostitutas, são o canal para a eclosão de uma voz interior a certa altura irreprimível. O ritmo de sua fala é  marcado, forte,  picante, entrecortado de hipérboles, gírias, ironias e palavrões, muitos palavrões. Solilóquios e diálogos revelam o imaginário poético do narrador centrado na infância, na fragilidade desta fase, na delicadeza dos primeiros anos. Também  refletem o desgosto e o pesar de perder o paraíso e ter de integrar o mundo que desdenha do fundo de sua alma. Sua expressão mais recorrente diante das atitudes e dos comportamentos ditos adultos, que ele considera sobretudo hipócritas, é: “Que nojo! Que vontade de vomitar...”
 
E vomita o tempo todo, enquanto percorre Nova York sem vontade de voltar para casa, onde a única presença que o anima é Phoebe. Se no conceito psicanalítico melancolia é o sentimento que advém de um luto que não se fez e provoca um desgosto ao relembrar o que passou sem ter de fato passado, então poderíamos dizer que o espírito melancólico de Caulfield é que o leva ao esgotamento.  Sem sentimentalismo, duro com os outros (“Como são esquisitos!”) e consigo ( “Sou um caso perdido.”), sentindo-se mal em todos os lugares, ele projeta só  zonas de sombra quando o assunto é a escola e a família. Em constante movimento, caminha, monologa, telefona, questiona, interroga, observa e foge. 
 
Instigante para o leitor é o título, cuja primeira pista aparece quando a história já vai bem adiantada. Ele foi retirado de um poema de Robert Burns, escritor escocês do século XVIII: “Comin’Thro’ the Rye”.  Os versos são os seguintes: “If a body meets a body/ Coming through the rye// Gin a body/ Meet a body/ Comin thro’the rye// Gin a body/ Kiss a body// Need a body cry?” No contexto do poema romântico  há uma clara conotação sexual, mas Caulfield , intencionalmente, troca a forma verbal ‘meets’ por outra, “catches”. E fica assim: “If a body catches a body, coming trough the rye”. Ouvindo-o, a irmã Phoebe o corrige. Mas ele mantém a forma escolhida, relatando-lhe que em sua peregrinação por Nova York vira um menino apartado de seus pais indiferentes, que pareciam não vê-lo, tentando se equilibrar no meio-fio de uma rua e cantando os versos que pertencem também a uma brincadeira infantil, um tipo de parlenda na língua inglesa. Depois, respondendo a uma pergunta da irmã, sobre suas aspirações futuras, ele explica: “Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando num campo de centeio. Milhares de garotinhos e ninguém por perto. Eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho de agarrar todo mundo que vai cair no abismo.” A partir desse sonho, dessa idealização,  o nome Caulfield  bem poderia ter uma leitura etimológica, junção de uma forma fragmentada do verbo to catch, apanhar, com o substantivo fields, campo. Forma e fundo estariam profundamente conectados. 
 
Caulfield impõe a si a missão de não permitir que as crianças caiam no precipício. Deixa subentendido que desejaria impedi-las de crescer, pois isso significaria tornarem-se pervertidas. É uma metáfora que traduz o livro de forma magnífica. Outra imagem poderosa está na descrição final de Phoebe no carrossel, ao som de Smoke gets in your eyes, “num ritmo bem ligeiro e engraçado”.  De repente desaba um dilúvio, mas Caulfield permanece sob a chuva, olhando embevecido a irmã:  “Me senti tão feliz vendo a Phoebe passar e passar. Pra dizer a verdade, eu estava a ponto de chorar de tão feliz que me sentia. Sei lá por quê. É que ela estava tão bonita, do jeito que passava rodando e rodando, de casaco azul e tudo. Puxa, só a gente estando lá para ver.” Phoebe. Impossível não associar o nome desta menina esperta e amorosa à fobia de Caulfield. A fobia da perda da inocência. Tanto medo ele tem de que a irmã seja contaminada pelo mundo adulto, que pouco antes dessa cena final, ao ler a palavra “Foda” num muro diante do qual a garota vai passar, atira-se de forma frenética a apagar o que está escrito com  giz, até que mais à frente encontra o mesmo palavrão escrito a tinta... Voltar para casa, encarar a realidade e desembarcar do sonho. Essas três necessidades não são contempladas pela mente de Caulfield nesse período de sua vida. Como um personagem de Shakespeare, ele acredita que  “nós só ficamos em ordem quando estamos  fora da ordem”. E talvez por isso seu relato em retrospectiva começa com uma menção ao lugar onde está: “Só vou contar essa coisa de doido que me aconteceu no último Natal, pouco antes de sofrer um esgotamento e me mandarem para aqui, onde estou me recuperando. Quando eu voltar para casa...”
 
Parece haver alguma esperança. Mas as últimas palavras do protagonista não são animadoras, apesar de profundamente realistas: “Uma porção de gente, principalmente esse cara psicanalista que tem aqui, vive me perguntando se eu vou me esforçar quando voltar para o colégio em setembro. Na minha opinião, esse é o tipo da pergunta imbecil. Quer dizer, como a gente pode saber o que é que vai fazer, até a hora que faz o troço? A resposta é: não sei. Acho que vou, mas como é que eu posso saber? Juro que é uma pergunta cretina.”
 
Uma constatação “cem por cento”, Caulfield.

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