O regresso de Rimbaud

Por: Sônia Machiavelli

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“A subida ao Gólgota  pode ter sido atroz. Minha descida dos altiplanos abissínios não terá sido menos sofrida. Parti, já crucificado. A liteira balouçante era a cruz e o esquife, minha perna direita o cravo que me transpassava de dor as carnes e o pensamento. Construída segundo meu desenho, mas com a falta de perícia e esmero doas artesãos, a liteira se assemelhava a um barco rústico, batido por tempestades, prestes a se desfazer e a afundar. Balouçante como uma nau no meio da tormenta, jogava meu corpo de um lado para outro e me provocava gritos de dor a cada passo daquela aranha  negra e estranha que se movia hesitante em direção à costa (...) Partimos no dia 7 de abril de 1891. Outro poeta ainda diria, um dia, que abril é o mais cruel dos meses. Para confirmar essa crueldade, logo a chuva nos surpreendeu.” 

Este parágrafo abre o quarto capítulo do livro O Regresso- a última viagem de Rimbaud, da ensaísta e ficcionista Lúcia Bettencourt,  que tem no currículo títulos premiados como  A Secretária de Borges, coletânea de contos que ganhou o SESC de Literatura em 2005. Com sua escrita elaborada Lúcia tece em O Regresso a saga do poeta cuja biografia se transformou em livros, peças e filmes. Nascido em 1854 em Charlesville, pequena cidade  do noroeste da França, Arthur Rimbaud tornou-se um fenômeno sobre o qual até hoje os críticos se debruçam, pois tudo o que tinha a dizer em termos literários o fez dos 15 aos 20 anos. Depois mudou radicalmente de rumo.
 
Adolescente  pós-romântico, rompeu com a tradição poética que alimentava ainda os de sua geração. Simpático ao Simbolismo,  conferiu cores às vogais num poema curto que se tornaria famoso.  Imbuído da certeza  de que  poesia e vida eram sinônimas, levou sentimentos e sensações para seus versos sinestésicos que surpreenderam pelo inusitado da forma. Arauto das novidades estéticas, da liberdade linguística, da sinergia entre verbo e sentidos, Rimbaud não diferenciava existência e arte. Assim, em movimento ousado para  sua  época, fugiu de casa e foi morar em Paris com um poeta já então célebre, Paul Verlaine, casado e pai de filhos, com o qual viveu durante três anos uma relação de amor e ódio que terminou com tiro e  prisão. Tanta turbulência seria inspiração para Uma estação no inferno (1873) a obra emblemática, embora   As Iluminações, publicado tardiamente em  1886, seja  considerada a obra prima. Entre  admiradores confessos estão Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Henry Miller, Esra Pound- o grande e temido crítico. No rol dos seguidores, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs- todos transgressores. 
 
O nosso Paulo Leminski, cujo estilo minimalista  produziu hai-cais abrasileirados, é autor de um sucinto mas esclarecedor ensaio sobre Rimbaud, analisado como o “enfant terrible que  pasmou os contemporâneos com sua precocidade poética”. Tanto quanto este espanto pelo rompimento com o passado e o anúncio  da vanguarda,   viria a perplexidade pela forma como conduziu sua existência este ser humano dotado de extremadas sensibilidade e audácia.  Aos 20 anos, abandona por completo a literatura e inicia uma vida errática, percorrendo, às vezes a pé,  vários países europeus. Atravessando  o Estreito de Gilbratar, instalou-se na África onde passou a trabalhar com comércio de café na Etiópia. Entrou num esquema de tráfico de armas e de escravos. Foi  à ilha de  Chipre e chegou ao Egito, onde   permaneceu algum tempo em Alexandria. Tornou-se conhecido como “o homem das sandálias de vento”. Mas sua caminhada terminou quando, por ironia disso a que chamamos destino, teve a perna amputada devido a um câncer no joelho. Ao final de dois anos de muito sofrimento, voltou à França para morrer em novembro de 1891 num hospital de Marselha. Tinha 37 anos. 
 
É este regresso que nos relata Lúcia Bettencourt, através de um narrador onisciente, do próprio protagonista, de algumas falas da irmã Isabelle, que esteve com Rimbaud no final. Somente ela e sua mãe acompanharam o corpo do poeta à sua morada final. Ler o livro é fazer parte deste séquito.
 
Curiosamente, Lúcia conhecia apenas alguns poemas de Rimbaud, aqueles que faziam parte de antigos currículos escolares de literatura francesa, quando leu um livro onde o relacionamento difícil do poeta com sua mãe lhe chamou atenção. A partir daí ela se lançou a um trabalho de meses, que mirou tanto o estudo da obra completa quanto a pesquisa local e documental. Esta busca rigorosa e o natural talento para a plasticidade que caracterizam sua escrita,  levaram a autora a construir uma narrativa que seduz o leitor da primeira à última linha. Da alternância de três  pontos de vista- do narrador em terceira pessoa, do próprio protagonista, e da irmã deste-  surgem no espírito do leitor possibilidades de compor um retrato que ficou inconcluso, a tal ponto que os dois museus franceses destinados ao autor, um dos grandes nomes da poesia de todos os tempos,  quase nada apresentam ao visitante interessado.
 
O narrador onisciente  é um leitor apaixonado que ao reler os poemas do artista refaz sua biografia. O protagonista, o poeta que atormentado pela dor do câncer no joelho está no limiar da loucura. A irmã, a única pessoa no universo familiar dotada de sensibilidade para entender a grandeza do poeta e seu comportamento inusitado.
 
Com extraordinária capacidade para envergar essas três vozes, Lúcia Bettencourt revisita a história de Rimbaud a partir de fatos descobertos em pesquisas textuais e deslocamentos geográficos- ela esteve em vários lugares por onde o poeta passou. Com sensibilidade, sutileza e bom gosto vai amalgamando na linha da narrativa referências a temas, motivos, versos e poemas do autor. É o que vemos no parágrafo que abre este texto, onde  Rimbaud relata que a liteira que o transporta na última viagem parece “balouçante como uma nau no meio da tormenta”, clara alusão a Le Bateau Ivre, um de seus mais conhecidos poemas.
 
O Regresso- A última viagem de Rimbaud, ilumina a brilhante vida literária e também a misteriosa vida pessoal de um dos ícones da poesia em língua francesa. E por que lemos não só para nos entretermos, mas também para nos nutrirmos com belezas e epifanias, diante de um livro tão comovente a sensação de gratidão à autora que nos permite desvelamentos  e descobertas  é  sentimento que emerge a cada página. Não posso deixar de agradecer também a quem me presenteou com este título importante que traz a marca de excelência da editora Rocco. Obrigada, Maria Luiza Salomão! 

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