Mineiras brumas...

Por: Maria Luiza Salomão

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Minas Gerais não é só grande em tamanho, mas em história e cultura. Uma cicatriz corta o estado, marcando a Estrada Real – aquela que trazia ouro e diamantes de Diamantina até o porto de Paraty.  Andei por um trecho dela, conhecendo um pouco, imaginando muito, as mortes de escravos, os lombos de burros, descendo e subindo montes, para carregar riquezas do que era colônia para Portugal.  Hei de conhecer todos os pontos dessa longa, tortuosa, íngreme estrada que marca tristemente a história do Brasil colonial. 

No feriado de 7/09, conheci um Brasil mineiro contemporâneo:  em meio a 140 hectares, estão espalhadas obras e galerias, arquitetadas para casar natureza e cultura. Entre trilhas no meio do mato, a descobrir fauna e flora nacionais e internacionais, contemplo  pensamentos e sentimentos recriados em arte genuína, brasileira e estrangeira.  
 
Muita coisa ocorre no meu coração, nas esquinas com que me deparo comigo mesma (na sabedoria pouca e ignorância muita): as rotas são infinitas. 
 
Infinito é o nome dado ao evento comemorativo de 10 anos de Inhotim, situado no município de Brumadinho, 40 km de Belo Horizonte. 
 
Em Inhotim, o início se deu a partir de uma coleção de um visionário -  o empresário mineiro Bernardo de Mello Paz a partir de meados da década de 1980. Hoje há ali um acervo riquíssimo de arte contemporânea e uma coleção de espécimes raras botânicas do mundo todo. 
 
A partir de 2008, o governo de Minas Gerais reconhece Inhotim como uma  Organização da Sociedade Civil de Interesse Público; em 2009, é também  reconhecida pelo governo federal. Fundada em 2002, sem fins lucrativos, destinada à conservação, exposição e produção de trabalhos contemporâneos de arte e de desenvolvimento de ações educativas e sociais. Em 2005, iniciam-se as visitas pré-agendadas das escolas da região e de grupos específicos. Em 2006, abertura ao grande público em dias regulares e com estrutura completa para visitação.
 
Tunga foi o artista que primeiro seduziu Bernardo Paz para essa coleção. Foi assim o homenageado da década. Mariza Monte, que esteve no sábado, 10/09, também foi grande parceira de Tunga, e esteve lá a encantar o público. 
 
Em 2015, Inhotim atinge o marco de 2 milhões de visitantes no parque desde sua abertura, em 2006. E esse museu a céu aberto é conhecido internacionalmente: cruzei com franceses, americanos, argentinos, espanhóis, em várias galerias. 
 
Brumadinho e Mário Campos, cidade a 17 km de Inhotim, tem se beneficiado com a instalação de Inhotim, dando oportunidades de trabalho para a população local e propulsionando um desenvolvimento social, educativo e cultural.
 
Vi várias galerias sendo construídas: o projeto está continuamente se expandindo e se transformando. 
 
Mas a grande transformação em quem lá vai. O corpo todo é requisitado: anda-se muito. Há muito que sentir e pensar, experimentar. Recantos, sombras, bancos charmosos de troncos trabalhados criativamente. Paradas entre um espaço e outro, entre um sonho e outro, entre um insight e outro.  Há muito que amealhar com a experiência sensorial, psíquica, intelectual sugerida pelo encontro com o que propõe Inhotim a quem o visita.  
 
Não há como não querer lá voltar: muito se perde nas brumas do que tentamos apreender. O aprendizado do novo é processo lento. Em uma palestra – nessa exposição Infinito – diz o palestrante que o professor não ensina o que diz, ele traduz ao aluno o que é. Isso faz o artista;  (como psicanalista me vejo fazendo isso); todo aquele que tenta sabe a dificuldade que é traduzir o intraduzível. Uma paixão move aquele que se levanta todos os dias, em meio às brumas, e tenta, infinitas vezes, a tradução: quem ouve, quem vê, quem atina, quem, no flash, pega o raio de luar, traduz o traduzido. Arte infinita, a tradução do que é.   
 
Assim é sentir-Inhotim: traduzir o traduzido. Quem aprende, ensina. Quem ensina, aprende.  

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