Uma história pra contar de um mundo tão distante

Por: Isabel Fogaça

332969

Isabel, a Dedé, é minha avó materna que não cheguei a conhecer. Além de termos o mesmo nome, traços e sangue, as pessoas ainda indagam encabuladas como podemos ser tão parecidas no modo de agir sem que nunca nos vimos ao menos uma vez. Quando eu era criança minha mãe comparava fotos minhas com as de expressões de minha avó, e hoje vejo que realmente somos muito parecidas. Porém, não me apego a uma vertente religiosa ou genética que explique nossa ligação, ela simplesmente existe, e a cada passo que dou nossa conexão aumenta ainda mais. Dia desses, minha mãe estava cantarolando “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” e no meio da canção, falou: “Sua avó Dedé gostava muito desta música!”.

Conversamos um pouco e minha mãe continuou dizendo que quando minha avó saía de Minas Gerais ela costumava cantar esta canção; afinal, seu coração queria retornar ao lar. Roberto Carlos compôs essa música para Caetano Veloso quando ele estava em exílio. Em suma, em situações diferentes, minha avó e Caetano queriam estar em casa, pisar na areia branca e voltar para a sua gente.
 
Quando o coração ama um lugar definido como seu é pra lá que você quer voltar. O joão-de-barro, por exemplo, que constrói a casa meticulosamente levando a terra no bico, e no final da tarde, depois de tanto esforço, é lá que ele vai repousar, e na manhã seguinte estufa o peito para cantar, e começar tudo outra vez. Além disso, estar em casa tem um significado especial quando lá residem as pessoas que amamos, a horta que cultivamos, e as memórias conectadas às sensações que gostamos de lembrar.
 
Escrevo este texto como uma  prévia despedida de Franca, logo acabo o mestrado e vou voltar para a minha gente, e vovó foi descansar, ou como minha mãe gosta de dizer: “Voltou para a casa”.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras