A jornada do herói

Por: Sônia Machiavelli

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Ao terminar a leitura de Paralímpicos, o sonho fantástico de um herói, livro infanto-juvenil da francana Maria Goret Chagas, veio-me à mente a obra de Joseph Campbell, O poder do mito, onde o autor, um dos maiores especialistas do gênero, aborda a construção do herói nas narrativas clássicas, da Grécia antiga aos nossos dias. É um estudo  que nos mostra como essa reiteração nos legou uma estrutura sólida, profunda  e recorrente, que os eventos descritos na  superfície às vezes não deixam clara. De Ulisses a Harry Potter, todo  herói passa por  momentos de prova, nos quais  precisa mostrar coragem para triunfar sobre seus medos e se reconfigurar diante da vida.

A jornada do herói geralmente é contada em 12 passos. E é  o que faz  a autora-narradora ao relatar a saga de Pedro. Apresentado como um garoto sensível e corajoso, ele vive numa casa erguida na floresta, cercado por seres alados como pássaros e  borboletas, em perfeita conexão com a natureza. Seu nome, explicado pela etimologia já nas primeiras linhas ( “Do grego Petrus, Pedro significa pedra, rochedo”), ajuda a aglutinar sentidos. Neste cenário regido pela harmonia, algo está prestes a ruir. No segundo passo, o  leitor é informado de que o pai de Pedro “beijou sua esposa e saiu para o trabalho, não voltou mais, pois sofreu um acidente e faleceu”. Este evento inesperado quebra a rotina do protagonista, convocado  a enfrentar a dor da perda. Terceira sequência: depois do luto do pai, a mãe se casa e o padrasto  mostra-se “ mal-educado, mal-humorado e grosseiro”. O sofrimento  do menino se intensifica com outra morte, a da mãe. A narrativa  abre o quarto passo com fato catalisador de grandes mudanças: Pedro cai de árvore, fratura vértebra, fica  paraplégico, é  de novo testado diante da hostilidade do padrasto que o expulsa de casa. Depois de algum tempo, na quinta sequência,  encontrará  acolhimento  nas figuras da velha avó, de um cão, da vizinha Sofia, “a menina cheia de sabedoria, conforme cifrava seu nome”. No  passo seguinte, será guiado a um espaço indefinido, onde convivem realidade  e  imaginação. Como naquela passagem que conduz Harry Potter a outro universo, Pedro descobre numa garagem abandonada “algo estranho pulsando debaixo de um lençol roído pelas traças, amarelado e empoeirado, fazendo barulho”. Sétimo passo: ao se aproximar do objeto oculto, descobrirá tratar-se de uma cadeira de rodas que mudará sua vida para sempre.  Arrastando-se e conseguindo sentar-se nela, perceberá que a mesma “ aumentou de tamanho, criou asas coloridas, asas de fogo, emanava uma luz própria e pulsava com cores vivas e brilhantes, um clarão formou-se à sua frente,  parecia uma terceira roda?” Oitavo passo, momento de decepção: Pedro perceberá que a cadeira voltará a seu estado anterior de objeto velho e desengonçado quando ele sair dela. Nono passo: uma iluminação o faz   perceber que há uma mágica para transformar a cadeira: “ era seu toque, a força, a vontade de vencer; o poder de transformação era dele ( e não da cadeira), vinha de dentro, a cadeira era dependente da sua energia. Ele se sentiu também mágico! ” Décimo passo. Pedro, alcançando liberdade na cadeira de rodas, sente-se recambiado ao mundo onde  vivera feliz com sua mãe, que lhe dissera um dia: “Filho, a força e a coragem vêm de dentro de você, transformando tudo!” Então, “Pedro começou a entender a sua jornada, mas precisava aprender muito mais ainda”. Essa aprendizagem, o décimo primeiro passo, lembra uma ressurreição. Revigorado em seu desejo de voar como os  pássaros e as borboletas, Pedro fará de sua cadeira de rodas uma imprescindível parceira que lhe permitirá vencer muitas competições, até chegar à mais importante, uma paralimpíada onde se sagrará campeão. O último passo, de número doze, mostra a volta do garoto transformado: “Feliz, foi ao encontro de sua nova família...” Ele era uma nova pessoa, mais fortalecida  e preparada para outras provas da vida. De fato, um herói. Como, aliás, o somos todos nós que, em nossas vidas prosaicas, lutamos  para superar precariedades, enfrentamos  medos e  não  renunciamos  ao sonho. As delicadas, belas e sugestivas ilustrações da escritora ajudam a contar a história. 
 
O leitor de qualquer idade vai sentir a energia que Goret imprimiu à  criação de Pedro, esse menino como ela também limitado fisicamente, mas com gigantesca força interior que o impulsionava a sonhar e encontrar caminhos. Em comovente prefácio, Jairo Marques, colunista e repórter de cotidiano da Folha de São Paulo, diz que “Pedro, o nosso menino com asas nos pés que é pintado com traços de ternura, coragem e resiliência ao longo desta narrativa, é exemplo completo de quanto a imaginação pode guiar o futuro para longe de qualquer tempestade ou pesadelo.” E mais adiante: “Goret Chagas, indo da floresta à  pista de competições de corridas em cadeira de rodas (sim, isso existe!), passando ainda por terrenos que fazem encolher o coração, reforça a relevância de sonhar e reforça o sentido de permitir às crianças sempre sonhar, independentemente de gênero, origem, classe ou conformidade física, sensorial ou intelectual.”
 
Se, como disse Freud, é necessário amar para não adoecer, tudo indica que é preciso sonhar para não enlouquecer. Paralímpicos, o sonho fantástico de um herói, da francana Maria Goret Chagas, publicado pela  Editora Leader, recentemente lançado em nossa cidade, mostra isso de forma lúdica, poética, plástica. Especialmente neste mês que hoje se inicia, o livro pode ser um presente especial para alguma criança do nosso entorno  ou  para a eterna criança que vive dentro de nós. 

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