Carta à Juliana

Por: Isabel Fogaça

334233

Enquanto eu ouvia aquela música do B.B. King no fone de ouvido que gentilmente você me emprestou, eu passava os olhos em Toda Poesia do Leminski. Estes dois motivos de prazer me potencializaram de tal maneira que tive que levantar do meu colchão cheio de migalhas para escrever sobre você nesta madrugada de terça-feira de recém primavera.

Nesta noite faz calor à beça e os mosquitos decidiram nos importunar, as suas explicações biológicas não justificaram o motivo da visita das moscas, talvez você tenha tido um dia difícil com várias responsabilidades com a graduação, e com tudo mais que você está envolvida, que me canso só de pensar. De fato, todos os dias você tem algo para ensinar seja sobre a complexidade do carboidrato da farinha de tapioca, ou sobre quando viajou aos Estados Unidos onde conquistou tantos corações que continuam te amando. A verdade é que por mais que o amor perdure, desconheço como será minha vida sem o brilho de suas histórias tocantes quando eu precisar me despedir no final do próximo mês.
 
Entretanto, faz algum tempo que gostaria de escrever sobre uma amiga com tanta verdade na essência, dedicada consigo e com os outros. Mas a rotina é cômoda, e por mais que às vezes tenhamos a sensação leviana de que nada mudará, tudo acaba mudando. Esperei tanto pelo mês de outubro, pois aí eu poderia enfim retornar à minha terra e então vivi todos esses anos como se o fato fosse impossível. Agora outubro chegou, e não iremos mais ocupar o mesmo quarto em Franca.
 
Por isso lhe escrevo, e também para contar que os  maiores poetas que conheci são os cozinheiros e garçons dos restaurantes onde trabalhei; os viajantes exaustos que dormiam nas rodoviárias por onde passei; as crianças a quem ensinei um pouco de história nas escolas nas quais  trabalhei, e você sendo exatamente o que é, respondendo saudosista ao bom dia de seu pai, ou sorrindo escancaradamente para o mundo enquanto ajeita o capacete da bicicleta.
 
E por mais que eu tente escrever e decifrar o mistério dentro destes olhos que mais se parecem com duas jabuticabas grandes e maduras, e esta alegria que insiste em brotar pelas manhãs em seu peito como uma flor de cacto grande e surpreendente. Enquanto eu ouvia aquela música gostosa do B.B. King e lia Toda Obra do Leminski, achei um verso que me lembrava você:
“Nada que o sol
Não explique
 
Tudo que a lua
Mais chique
 
Não tem o que desbote essa flor.”
 
Seja feliz, Juliana. Estou voltando para casa.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras