Pássara

Por: Sônia Machiavelli

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Acompanho a carreira literária de Vanessa Maranha desde o  início. Já nos seus primeiros contos  publicados me chamava a atenção um natural  talento para o monólogo interior, técnica narrativo/linguística que tanto exige ao escritor. Pede  percepção sobre os movimentos sutis da alma. Pede sensibilidade  para  o encontro das palavras perfeitas que desvelem  a intricada teia das emoções humanas. Pede também muita lucidez, pois incontáveis vezes  o olhar humano se confunde:  na vida real,  como em Róvia,  espaço fictício  onde um escritor vai parar sem saber exatamente por que,  “as visões podem ser miragens, nem tudo  o que parece é, nem tudo o que se vê se traduz ao pé da letra”. Este relato com características de novela , intitulado  cidade gótica, foi construído de forma sofisticada para  descortinar com  tocante delicadeza os limites tênues entre “a pessoa com o discurso a ungi-la”. É ele que  fecha  pássara.

 Lançado no final do ano passado, pássara ( Editora Patuá) foi apresentado pela autora como “um livro sobre voos.  Tímidos, curtos, de fôlego, sem sopro; voos metâmeros- latentes, rasantes, cheios ou  embrionários, ainda ovo. Voos ensaiados, impedidos, fora da asa.” Dédalo e Ícaros, criadora e criaturas, VM  mostra aos leitores  dezoito histórias densas, impactantes, microcosmos que se por um lado nos assombram pela originalidade, por outro nos recambiam ao mais genuíno de nós, levando-nos a nos ver refletidos  em  situações, relacionamentos, idiossincrasias, neuroses,  incômodos, frustrações, desejos;  sentimentos, enfim, que nos definem como humanos. É principalmente pelo monólogo interior, mas não apenas,  que  VM traz à baila os mais recônditos sentimentos dos personagens, a força das emoções, o embate entre elas,  a maneira como são deflagradas, o jeito como brotam, se organizam, se conectam (ou não), se contraditam.
 
Quanto ao ponto de vista, pássara mostra gradações. Em ganzá e madame satã, por exemplo, ambos com desfechos surpreendentes, o discurso é marcado pela terceira pessoa mas  o narrador exerce tal nível de onisciência que parece aderir ao âmago dos personagens e misturar-se a eles.  Em flor de guavira, pequeno  drama que lembra  um  cromo agreste, a terceira e a primeira pessoas  às vezes se justapõem, como acontece   no décimo parágrafo: “Maria Tomé, que passara a noite em incômodos, entrou na cabana suprida de bacias com água.  Vou me deitar,  já comi muito capim, acho, pelo toque, que agora mesmo o bichinho aponta, a cabeçona dura me congestionando por baixo”.  Em tua carne, destacado  na contracapa, é  pelo  deslocamento do olhar da protagonista  que as pessoas se alternam: “ Ele chega e vai, não sei se volta, se gosta, se quis mesmo. Não me olha nos olhos, você nunca me olha nos olhos que é para eu não ver o fundo irisado intransponível que te habita, ou o que de fato não há- nenhum sinal, nada, signo, símbolo, aceno, uma chama?” Em a secretária, de ritmo ágil e  incontida ironia,  a protagonista  se perfila como se discursasse, ou falasse num  microfone, sem nenhuma interferência . Mas na  maioria dos contos  os personagens  dialogam consigo como se não desejassem verbalizar em voz alta o seu propósito. Dessa forma  o relato vai se estruturando  com o fluxo ininterrupto de pensamentos que atravessam a alma - desde que surgem  e à medida que  evoluem: “Não leio, não navego, nem ligo a TV ao voltar para casa, à curva perigosa desse dia mais ou menos, os tendões doloridos do batucar pressuroso ao computador, alguma secura na pele, a louça à espera, panelas a preencher, o menino pedindo, o pai chegando, sua corola pontiaguda, lençóis manchados mais tarde, alvejados no dia seguinte, o anil líquido sobre a máquina de  lavar roupa”- diz Júlia em andante ostinato.   Grafar esta  sub- conversação, como a definiu  Natalie Sarraute, outra escritora valorosa, exige grande introspecção ao ficcionista que necessita buscar a expressão do pensamento em seu estado nascente, não raro naquele lugar mais íntimo e próximo do inconsciente, a um passo da organização lógica. Capturar essa linguagem no seu nascedouro, afastar-se do personagem para deixá-lo falar com liberdade e isenção, conferir coerência e consistência  à sua voz para que se torne compreendida pelo leitor  é trabalho para o escritor que  ama  as profundidades. Solicita ao ficcionista talento, concentração, busca pelo ritmo necessário de uma mensagem que às vezes  tem de se valer de  elipses,  como se vê já no primeiro conto, genealogias:  “ Seus duelos calados, crimes miúdos, intentos encobertos de uma muito velada destruição: não ajudá-la a ir adiante porque ele definitivamente não ia, era um modo.”
 
O jorro criativo de VM  povoa as páginas de pássara  com personagens urbanos e rurais; adultos e  adolescentes; homens e mulheres, muitas mulheres; seres humanos vivendo no nosso tempo ou seres  robotizados no longínquo  2072.  Também, e considerei ponto alto do livro, desmitifica a maternidade nos moldes cristãos que nos foram impostos há séculos.  Sem  preconceitos, despida de qualquer moralismo, VM convida o leitor a refletir sobre culturas, condições e circunstâncias de várias mães em relacionamentos com  seus filhos.  Não só a mãe “de fogo medéico”,  personagem do conto que dá nome ao volume, como também a  que abandona o menino  para seguir o amante;  a que despreza a filha que nasceu fora dos padrões de beleza que a genética não garantiu;  a exaurida pelo cotidiano;  a outra cuja miséria é tamanha que leva a filha a se prostituir;  a que dá à luz na região árida e entrega  o filho a quem o queira ; a “severamente crítica e asséptica” que surge devagar em ana e lauro; a mãe do psicótico (quando o mundo parou);  a do  adicto em filho pródigo: “Era com terror e remorso que essa mãe amava seu filho torto. Vontade era a de extirpar a porção podre de si que via nele consignada, a corroê-lo. O olhar, sem saída, parava então no caule da murta espetado no vaso que via da janela e ali pressentia o frenesi da seiva a correr por dentro da planta em seu movimento silencioso. Cingindo a ideia de que essa vida só pode mesmo ser redonda e não retângula: “ e  tudo se repetirá”,  dizia a si mesma, a alma rugosa de sentir, tenazes agarrando seu coração.”
 
Em maior ou  menor grau  há dor em todas as histórias de pássara. Emerge um sofrimento que punge especialmente quando advém da consciência da efemeridade da existência, fato de que nos dão mostra Eduardo e Laura em frisson, um dos poucos textos com toque de ternura. Irrompe  certa desesperança  derivada  da solidão, como  registra  o protagonista de distopia, ao  monologar: ”Você entrou fundo  na onda da novidade e do descarte. Você cria movimentos mínimos de sobrevivência, que, do contrário, morte! Como se a vida fosse uma estrada longuíssima e previsível”.
 
 A vida, por mais que se viva, não é longa, muito menos é previsível, nos  sussurra  nas entrelinhas  VM.  A existência  é precária, isso sim,  e nós, humanos, não nos definimos pela linearidade, reitera.  Somos  terreno  plasmado por múltiplas emoções, interpretamos vários papéis ao mesmo tempo ao  longo da existência, alerta. E  essas emoções e papéis  podem  colidir e causar danos, enquanto  os relacionamentos correm o risco constante  da oxidação-um dos temas do conto amigos, o mais longo do conjunto. 
 
Muitas perguntas brotam em nós, leitores, à medida que vamos avançando pelas  144 páginas de pássara:  como chegamos a situações limítrofes? é possível conferir sentido à misteriosa  vida? por que tantos  a dissipam sem qualquer piedade? Qual é o nível de responsabilidade para conosco e os outros? a comunicação entre humanos será sempre incompleta e imperfeita? estamos fadados a interferências de toda ordem ao desvelar e compartilhar nossas emoções? a  solidão é uma condenação? 
 
Narrativas onde a dor, como a morte, “a indesejada das  gentes”, se faz  onipresente  precisam de uma linguagem altamente estética que mantenha o encantamento do leitor por aquilo que lhe é contado. Esta linguagem, singularizada pelo estilo,  constrói-se  com o léxico, na sintaxe e através das  figuras de linguagem, especialmente  das metáforas.  O estilo  é uma conquista do autor que se torna reconhecido até nos menores parágrafos. Assim Vanessa Maranha, que  ascende e brilha, seu  olhar para a vida cada vez mais aberto, preciso, incisivo, percuciente e inquiridor.  Isenta de julgamentos, sua  literatura nos consola de nossas fragilidades, abre muitas janelas para a reflexão, desperta maior compaixão pelo outro que  encontramos em nosso caminho e também carrega suas doses de incertezas, angústias, medos, ansiedades, inseguranças, frustrações; mais  inveja, ciúme, raiva, ressentimento e instintos homicidas -  pois  a selvageria ainda permanece pulsando dentro de nós.
 
 Impossível colocar o ponto final neste comentário  sem dizer que a pena da psicóloga colabora com  a asa da ficcionista  em seus voos cada vez mais altos. 

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